Archive for December 2019

Os Contos das 7 Cores - 1

O Conto da Cor Cinza



> Sete dias antes do ataque ao Museu de Pewter.
> Um dia antes do acidente em Cinnabar.

A equipe já estava há uma semana no Monte Lua, entre as rotas 3 e 4 da região de Kanto. Um pequeno time de pesquisadores e mineradores havia partido para a cidade com a intenção de procurar por antigos fósseis e Pedras da Lua que, inclusive, davam o nome à montanha. Esses minérios receberam esse nome há muito tempo devido à característica de brilhar durante a noite, refletindo a luz da lua, e chamando atenção no breu. As evidências cientificas atuais apontam que as tais Pedras da Lua não são minerais formados na Terra, mas sim rochas que caíram do espaço, o que fazia o nome se encaixar mais ainda.

O Monte Lua era a fonte mais abundante destas pedras em Kanto e ficava por conta de uma parceria público-privada da cidade Pewter minerá-las. Elas eram tanto utilizadas para pesquisa quanto para comércio: Além de ser um item de colecionador, a Pedra da Lua tinha um alto valor para treinadores, afinal alguns Pokémon só podiam evoluir absorvendo a energia irradiada por ela.

Um dos passatempos favoritos de Brock era cavar em busca de fósseis. Ele fazia questão de fazer com que todos os paleontólogos do museu de Pewter soubessem desse seu passatempo, e fazia questão de que todos soubessem que podiam convidá-lo quando tivesse alguma excursão em que ele pudesse participar em alguma localidade próxima à Pewter — normalmente o Monte Lua. Mas dessa vez, procurar restos biológicos preservados de forma mineralizada não era o principal objetivo de sua ida com o grupo. Era a segunda lua cheia do ano e aquele era um evento importante naqueles arredores, já que ela iluminava a noite mais que o normal. O Monte Lua era o lar da maior Pedra da Lua conhecida pela humanidade, sua mineração foi proibida pelos antigos líderes de ginásio de Pewter e Brock mantinha a ordem.

Tal pedra iluminava o topo do Monte Lua como uma segunda lua no céu das rotas 3 e 4 nas noites de lua cheia, e alguns casais iam até o Centro Pokémon da Rota 3 para ter um jantar romântico à luz de duas luas. O líder de ginásio já tinha visto esse fenômeno antes, mas não era isso que ele buscava dessa vez. Ele tinha ouvido falar que na segunda lua cheia de cada ano, alguns Pokémon se agrupavam ao redor desta grande pedra e então faziam uma espécie de ritual, numa dança hipnótica que poucos olhos humanos puderam presenciar. Era isso que ele buscava nessa excursão, este comportamento misterioso.

Brock e seu Geodude já haviam encontrado e recolhido algumas carapaças que provavelmente pertenceram a Kabutos eras atrás que seriam enviados para o Centro Paleontológico de Cinnabar quando retornassem para Pewter, além de ser usados para estudos no museu. Agora teria um par: Um Kabuto e um Omanyte para serem expostos.

Ele andou por horas pelos tuneis do Monte Lua, escalando e descendo paredes. Geodude o ajudava em todas as situações, desde um impulso para alcançar a borda mais alta de uma parede até a dar nós nas Cordas de Escape* que eram usadas para se descer, tudo de forma sincronizada. Brock não parava de conversar com seu Pokémon, como se a criatura pudesse falar seu idioma, e como se o treinador fosse capaz de entender a linguagem do monstrinho.

Finalmente, os dois encontraram um grande grupo de Clefairy se deslocando pelos túneis, saltitando alegremente para cada vez mais adentro do interior da montanha. Os Pokémon rosados eram velozes, e as paredes que para o humano eram obstáculos eram facilmente saltados pelas fadas como se elas fossem papéis levados ao vento. Eles continuaram seguindo aqueles Pokémon por vários metros túnel adentro. Após algum tempo, começaram surgir por ali alguns poucos Nidorinos e Nidorinas. Alguns olhavam para Brock, mas nenhum dava muita atenção, apenas continuando a se proteger do mundo exterior.

Demorou algum tempo até que eles chegassem ao topo da montanha. Um arco de pedra delimitava a saída do túnel para um local aberto no topo do monte à céu aberto. Brock estava maravilhado. Nunca estivera ali antes, podia ver toda a cidade de Pewter de onde estava. Todas as luzes acesas com a noite que já tomava conta do céu, feito milhares de estrelas brilhando no chão. Conseguiu achar as luzes acesas de sua casa, próxima ao ginásio da cidade, e era impossível não ver as colunas de luz que iluminavam o Museu. Ele ficou ali por alguns instantes com seu Geodude admirando a sua cidade, até ser empurrado pela multidão de Pokémon que já se aglomerava no túnel atrás dele.

Ele deu alguns passos para frente e deixou que as criaturas passassem, virando para a esquerda, observando para onde eles estavam indo. Foi aí que ele viu, em êxtase, a famosa Pedra da Lua, a maior de todas. Ele ouvira relatos, mas ver pessoalmente era diferente. Era um absurdo haver uma Pedra da Lua daquele tamanho, de altura, ela deveria ter pelo menos três vezes a altura de um ser humano adulto, e de largura e comprimento ela devia ter uns cinco ou seis metros, ele não sabia. Sua boca estava entreaberta sem ele perceber devido tamanha surpresa e admiração.

A Pedra já brilhava um pouco. As Clefairy pulavam e dançavam ao seu redor, cantando uma música em ritmo hipnótico. Nidorinos e Nidorinas rugiam para a pedra, como uma espécie de chamado. Brock conferiu o relógio, e faltavam alguns minutos para a meia-noite. Ele decidiu se sentar no chão e esperar enquanto assistia ao espetáculo não ensaiado apresentado pelos Pokémon selvagem. Geodude se deixou descansar em seu colo, e ali eles ficaram.

Quando a lua cheia alcançou seu zênite no céu noturno, a Pedra da Lua gigante alcançou seu brilho máximo. A canção dos Pokémon chegou ao seu máximo volume, mas não incomodava Brock, pelo contrário: Ele achava lindo. Um a um, os Pokémon começaram a brilhar em um tom prateado, como a própria Pedra da Lua, e a mudar sua forma física. O humano estava cada vez mais impressionado.

Estruturas que se assemelhavam a asas agora apareciam nas costas das Clefairy onde antes parecia apenas um laço. Suas orelhas e sua cauda cresceram. Agora elas haviam se tornado Clefable.

Os Nidorinos e Nidorinas que ali estavam também ficaram maiores, permanecendo agora sobre duas patas. Seus músculos ficaram definidos e o couro de sua pele agora estava mais grosso e resistente, sem falar dos espinhos em suas costas, que agora pareciam mais ameaçadores. Agora Brock estava na presença de Nidoking e Nidoqueen.

Todos os Pokémon recém-evoluídos começaram a cantar e a dançar, se cumprimentando e festejando. Aquele era um momento de alegria. Uma Clefable se aproximou de Brock e o puxou pelo braço, fazendo-o cair na dança com seu Geodude também. E eles dançaram ali por algumas horas, até não aguentarem mais.

Aquele era um dos dias mais felizes da vida de Brock. Uma memória que ele guardaria com carinho.

***

Uma Clefairy então se aproximou dele. Ele já estava deitado observando a lua e as estrelas ao seu redor. Ela parecia examiná-lo.

Ele se sentou e a cumprimentou. Mas depois reparou no fato de ela não ter evoluído junto com as outras. Seus olhos pareciam olhar no fundo da alma do humano. Suas pupilas se tornaram brancas e ela tocou em seu peito.

O topo do Monte Lua sumiu instantaneamente. Brock se viu no campo de treinamento ao lado do ginásio de Pewter. Ele estava confuso. Olhou para o horizonte e viu o Museu explodindo e caindo aos pedaços. Ele olhou para baixo para pegar sua PokéBola e piscou. Quando abriu os olhos, percebeu que já estava dentro do Museu de Pewter, mas tudo ao redor estava destruído. Como ele havia chegado tão rápido?

Brock olhou pra frente e viu algumas pessoas vestidas de preto e viu seus outros Geodude lutando. Pelo canto do olho ele viu um homem gritando e um Mankey urrando enquanto surrava um Raticate. Ele piscou para tentar processar a informação. Sentiu uma pressão no peito e abriu os olhos. Estava de volta ao Monte Lua.

A Clefairy havia tirado a mão de seu peito e estava correndo para o túnel. Ele correu para tentar acompanha-la, mas tudo que viu quando chegou no túnel foi uma luz amorfa sumindo entre vários dos túneis anexos.

***

Pela manhã ele já estava praticamente sozinho no cume do Monte. Ele ainda estava intrigado lembrando da Clefairy estranha da noite anterior. Se aproximou da grande Pedra da Lua e retirou uma pequena lasca. Logo tratou de achar o caminho de volta até as outras pessoas da expedição. Mais tarde naquele dia eles voltariam à Pewter.

***

— Então você presenciou o ritual de evolução do Monte Lua. — comentou o Professor Carvalho através de uma vídeo-chamada.
— Sim! Foi uma experiencia única e muito interessante! — respondeu Brock.

Ele tinha acabado de chegar em sua casa em Pewter. Ligar para o Professor Carvalho foi a segunda coisa que ele fez, após dar um beijo e um abraço em cada um de seus irmãos mais novos.

— Mas algo ainda me intriga, Professor — continuou o líder. — Durante o ritual, eu vi uma Clefairy que não havia evoluído e ela me fez ver... Coisas estranhas...
— Bem, eu não me espantaria com a segunda parte, o Metronome é capaz de desenvolver qualquer poder. Mas uma Clefairy que não evolui com a Pedra da Lua? Isso eu nunca vi...
— É... Eu até peguei uma pequena amostra da Pedra. O senhor quer que eu a envie até Pallet?
— Não. Conheço alguém melhor para você enviar.

***

> Quatro dias antes do ataque ao Museu de Pewter.
> Dois dias depois do acidente em Cinnabar.

— Então uma Clefairy não evoluiu perto disso aqui? Que estranho — comentou o homem em frente a uma tela.
— Foi o que eu soube pelo Brock, o líder de ginásio de Pewter — respondeu o Professor Carvalho, cujo rosto aparecia no outro lado da tela. — Achei que um especialista em Evolução Pokémon como você pudesse ter alguma resposta, Elm.
— Bom, eu fiz alguns testes na Pedra, e ela parece normal, minha melhor hipótese é de a tal Clefairy é que era diferente. O vulcão de Cinnabar explodiu essa semana, depois de séculos inativo. Coisas estranhas estão acontecendo, Carvalho.
— O mundo está mudando, meu caro aluno... Temos que estar prontos. Eu mesmo pedi para meu neto e um amigo dele coletarem dados para a enciclopédia que estou produzindo. Você podia pedir a ajuda da sua sobrinha quando ela estiver mais velha.
— É... Com uns 20 anos talvez...
— Você é superprotetor com ela, Elm! Haha! — riu Carvalho.
— Haha, talvez, mas eu amo aquela garota, quero ter certeza que o mundo não vai machucá-la.
— E quem somos nós para garantir isso, Elm?
— Quem somos nós...? Pois é. Bem. Vou encerrar o expediente por hoje. Foi bom falar com o senhor, meu querido professor! Até a próxima!
— Até a próxima, Elm!

O cientista desligou a chamada em seu computador e se pôs a sair do laboratório, desligou as luzes e foi para sua casa. Não demorou muito até que as luzes fossem acendidas novamente, desta vez por duas crianças.

— Eu disse que se a gente esperasse a gente conseguia! — falava com firmeza uma garotinha de cabelos castanhos presos em maria-chiquinhas e uma boina vermelha. Trajava uma camisa azul e um macaquinho branco
— Mas a gente esperou muito, sua trouxa! — respondeu um garoto de cabelos pretos e rebeldes que eram controlados por um boné dourado. Usava uma camiseta e uma bermuda vermelhas e um casaco preto com detalhes brancos. — Isso foi algo tão de gente trouxa que a partir de agora quando alguém for trouxa eu vou dizer que essa pessoa Lyrou.
— Para de ser babaca, Ethan. A gente tá aqui pra ver os Pokémon que o titio Elm tem. Me ajuda a procurar.
— Você Lyra tanto que precisa de minha ajuda pra procurar os Pokémon do tio que é seu.
— Ethan! Você quer ver os Pokémon ou não, seu bestão?!
— Tá bom, tá bom...

As duas crianças então começam a procurar em cada canto do laboratório por PokéBolas escondidas. Eles abriam gavetas, armários, puxavam livros das prateleiras para olhar por trás, mas não encontraram nada.

— Pô, Lyra, esse laboratório aqui é tão grande que seu tio trás até pedra pra cá. — comentou Ethan pegando o pedaço da Pedra da Lua e mostrando para a colega. — Será que ele tá Lyrando?
— Meu tio nunca faz nada estupido, Ethan. Nem eu. Olha só!

Lyra tirava de cima de um armário uma maleta de metal entreaberta, parecia pesada, mas ela usava toda sua força para colocar calmamente no chão e abrir. No interior da maleta, duas PokéBolas repousavam em duas almofadas pretas.

— Pokémon! — gritou Ethan empolgado, que pegou as duas esferas e arremessou para cima. As duas emitiram uma alva luz que deram forma a dois Pokémon: O primeiro tinha o corpo formado por duas bolas repleta de pelagem azul, uma esfera formava sua cabeça e a outra, fazia parte de sua cauda. Ele parecia assustado e estava prestes a chorar só de ver aquelas duas crianças o encarando. O outro Pokémon também era coberto por um pelo azul, mas parecia achar tudo engraçado. Tinha uma grande cabeça com uma larga protuberância em sua testa e dois braços que, como orelhas, ficavam ao lado de sua cabeça. Tinha o corpo maior que sua cabeça e uma pequena cauda preta com uma marca branca que se assemelhava a um olho.

Lyra correu para o que parecia prestes a chorar e o abraçou com calma.

— Ô bebê... Não chora... Tá tudo bem...

O pequeno pareceu se acalmar um pouco e se encolheu nos braços da garota. Já Ethan, pareceu simpatizar com o segundo Pokémon.

— Eu gostei desse. Ele tá rindo de tudo!

O menino se aproximou e deu um tapinha em sua cabeça, mas assim que piscou, todo seu corpo foi empurrado para trás com violência.

— Mas o quê?! Ora, seu...

O menino correu para agarrar o Pokémon, mas novamente foi empurrado para com o dobro do impulso que havia aplicado em sua corrida, e caiu de bunda no chão.

— Eu não gostei desse não! Nunca que eu vou ter um Pokémon desse, nem evoluído!
— Eu quero ficar com esse aqui. É muito fofo! — comentou Lyra.
— Se você vai levar alguma coisa daqui, então eu vou levar a pedra maneira — comentou Ethan guardando a pedra que havia achado mais cedo no bolso.

E então um estrondo. A porta se abriu e o Professor Elm entrou no local, assustando as duas crianças.

— Lyra! Você de novo entrando aqui sem mim e com meninos estranhos?! Pra fora! Vamos, vamos!
— Mas titio, eu quero ficar com esse Pokémon!
— Você não tem idade para ter um Pokémon garota, PARA FORA! — gritou o pesquisador.

As crianças não quiseram ficar para ver o que aconteceria depois e saíram correndo do laboratório. Elm encarou a bagunça e ficou cabisbaixo.

— Agora eu vou ter que arrumar tudo isso... — ele se aproximou de sua bancada e procurou em vão o item mais importante que havia adquirido recentemente. — Ah não... Eles perderam a Pedra da Lua...

***

> Dia do ataque ao Museu de Pewter.
> Seis dias depois do acidente em Cinnabar.

No dia anterior, ele tinha derrotado um desafiante. Talvez tivesse pegado pesado demais, mas o novato não sabia nem que um ThunderShock não tinha efeito contra um Onix. Um de seus papeis como Líder de Ginásio era ensinar valiosas lições aos desafiantes. E ele tinha dado a oportunidade da desistência, mas o garoto preferiu o orgulho. Esperava que um dia o rapaz entendesse a diferença entre o orgulho e medir suas próprias capacidades. Esperava que aquele jovem treinador não desistisse e que pudesse vê-lo novamente. Mas ele não podia ficar parado.

Brock estava treinando em seu campo ao lado do ginásio de Pewter quando ouviu o primeiro estrondo. Ao correr para o lado de fora e dobrar a esquina, notou a primeira coluna de fumaça subir do Museu de Pewter.

— Maldita Clefairy...


*Cordas de Escape se refere ao item Escape Rope.

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