Capítulo Especial de Natal
A noite em que a esperança e a paz se cruzaram
A
noite estava fria. A luz da lua tentava espreitar pelos ramos das grandes
árvores, mas a escuridão reinava naquele momento. Aproximava-se uma tempestade
a toda a velocidade.
Uma criatura de quatro patas saltou dos arbustos, correndo sem rumo. Respirava de forma ofegante enquanto os músculos das suas pequenas patas se esforçavam para correr sem parar. O pelo do seu corpo acastanhado permitia que o Pokémon se camuflasse entre a escuridão da noite, mas as suas seis caudas avermelhadas não passavam despercebidas.
Num
rápido movimento, os olhos escuros de Vulpix espreitaram para trás, na direção
oposta em que corria. Um grupo de rochas castanho-acinzentadas com braços
musculados saltitava na sua direção. Os três Geodude eram liderados por uma
criatura rochosa mais volumosa. O seu corpo era coberto de saliências e
caracterizava-se por ter quatro braços fortes. Graveler rebolava pelo chão a
toda velocidade, passando entre arbustos e saltando entre as raízes das
árvores.
—
Por favor, deixem-me em paz! — grunhiu a raposa, enquanto continuava a correr.
—
Demasiado tarde! — a voz de Graveler era imponente. — Não podes roubar-nos
comida e depois fugir sem sofrer as devidas consequências.
—
Mas a comida não era vossa! — insistiu Vulpix, tentando contrariar o medo que
sentia. — As Berries estavam na árvore.
Várias
rochas foram arremessadas na direção do felino, que se esquivou agilmente de
todas. O Rock Throw de Graveler não seria suficiente para travar Vulpix,
que estava focado em regressar a casa, para os braços da sua mãe. A raposa
expirou uma grande chama de tons laranja na direção de dois arbustos,
desaparecendo atrás dos dois. Ouviram-se pequenas explosões à medida que as
chamas altas de Incinerate consumiam os ramos e as folhas das verduras rastejantes.
O fumo provocado pelas chamas foi suficiente para atordoar as criaturas
rochosas, sem rumo entre a escuridão da noite e a ameaça do fogo.
Vulpix
continuou a correr desenfreadamente. Queria certificar-se que conseguia
estabelecer uma distância segura dos seus predadores. Finalmente, encontrou uma
árvore suficientemente alta que pudesse utilizar como refúgio. Trepou pelos
grossos e longos ramos e espreitou pelo horizonte. Ao longe, conseguia
distinguir pequenas chamas e o fumo negro que provocara. Lamentava o cenário de
destruição que causara, mas o seu instinto de sobrevivência falara mais alto,
tal como a sua mãe ensinara.
Esboçou
um pequeno sorriso, ao lembrar-se da sua família. A mãe pedira-lhe que fosse
recolher mantimentos para si e os seus irmãos. A tarefa rotineira acabou por se
transformar numa aventura noturna, depois de Vulpix tentar explorar uma área
diferente da habitual. Recordava-se da mãe o avisar múltiplas vezes: “Tem
cuidado por onde andas, Light. Nem todos os Pokémon querem ser nossos amigos”.
Mas o pequeno felino nunca percebera realmente o que a mãe queria dizer. Agora,
começava a ter um vislumbre disso mesmo.
Os
seus pensamentos foram interrompidos por um ruído. Entre os ramos das árvores,
conseguiu identificar os corpos dos três Geodude e de Graveler. Em grupo,
desferiam vários Rollout contra diferentes troncos e arbustos. Pareciam
desvairados, cegos por encontrar Vulpix e vingarem-se.
Seria
uma questão de tempo até o voltarem a encontrar. Não podia permanecer no topo
daquela árvore para sempre. Mas Vulpix não sabia para onde ir. Entre a
escuridão da noite e toda a corrida para escapar às ameaças dos oponentes
rochosos, a raposa afastara-se bastante do território que conhecia. Não sabia
para onde ir. Pior ainda: não sabia como voltar para casa.
•
• •
Um
par de pequenos olhos observavam atentamente a lua. A pequena figura de corpo
rosa focava-se na sua luz, concentrando as suas forças e energias. Atrás de si,
erguia-se a entrada para uma caverna. A sua missão era protegê-la, mas Clefairy
não parecia muito preocupada com isso.
Levantou
os pequenos braços e, em simultâneo, as pontas acastanhadas das suas orelhas
mexeram-se involuntariamente. Depois, as suas pernas, imóveis até então,
começaram a mexer-se. Iluminada pela lua, Clefairy dançava harmoniosamente.
Fazia-o de forma quase involuntária: era apaixonada por dançar ao luar.
Pequenos
flocos de neve começaram a cair do céu. O vento gelado também já se fazia
sentir. A tempestade chegara. Mas, mais uma vez, nada era mais importante para
Clefairy do que a luz noturna emitida pela lua.
-—
Já te disse, Hope! — ouviu-se uma voz estridente. — Tens de te concentrar
quando estás de vigia.
Clefairy
despertou rapidamente e voltou-se na direção da voz, encontrando uma figura
alta de corpo rosa. Nas suas costas, pequenas asas de tom púrpura salientavam a
sua beleza. Os olhos de Clefable fitavam a figura da pequena criatura.
—
Desculpa, mãe. Mas é tão aborrecido estar aqui — lamentou. — Sabes que nunca
acontece nada. Todas as famílias têm as suas cavernas. É mesmo necessário
continuarmos neste sistema de vigia?
—
É claro que sim! Não sejas tonta. Já falámos sobre isto — afirmou, severamente.
— Vou voltar para dentro e vigiar as tuas irmãs. Concentra-te! — exclamou,
antes de voltar para o interior da caverna.
Clefairy
assentiu e voltou-se para a frente. Sentiu de novo a luz do luar incidir sobre
o seu corpo, mas desta vez esforçou-se para não ceder à tentação. Vigiar a
entrada da caverna era uma tarefa que a sua mãe lhe tinha atribuído por ser a
filha mais velha. Mas era, de facto, uma missão enfadonha. Agora, relembrava as
palavras repetidas vezes sem conta pela mãe: “Fazes ideia do que aconteceria se
um Pokémon selvagem nos atacasse? Quem nos iria proteger a todas?”.
A
criatura assentiu, em silêncio. Sentou-se no chão e focou o seu olhar no
horizonte à sua frente. Sempre sonhara em dançar para lá da caverna da sua
família. Mas as responsabilidades para com a sua mãe e irmãs sempre falaram
mais alto. Seria assim para sempre. Ou, até quando deixassem de precisar dela.
Absorta
nas suas reflexões, Clefairy nem se deu conta do passo apressado de uma
criatura que se aproximava da entrada da caverna.
—
Olá.
Clefairy
levantou o olhar e surpreendeu-se com o Vulpix à sua frente. Não era habitual
encontrar aquela espécie junto de Mt. Moon.
—
Olá? — respondeu, surpresa.
—
Desculpa incomodar-te — a pequena raposa estava inquieta e nervosa. — Preciso
de ajuda.
—
Oh… — murmurou a criatura rosa, curiosa. — O que se passa?
—
Estou a ser perseguido. Preciso de me esconder — explicou, atravessando o olhar
pela entrada da caverna, atrás de Clefairy.
—
Certo… — assentiu. — A minha mãe não gosta muito que levemos estranhos para a
nossa caverna.
—
Eu compreendo. Mas, não tenho para onde ir. Não sei como voltar para casa. — os
grunhidos de Vulpix começavam a revelar a sua fragilidade.
—
Que horror — suspirou a outra. — Muito bem. Vou tentar ajudar-te.
—
Obrigado! — exclamou, dando um pulo. — Como te chamas?
—
Sou a Hope. E tu?
—
O meu nome é Light.
Clefairy
esboçou um pequeno sorriso e, por momentos, voltou o seu olhar para a lua.
Depois, assentiu e concentrou-se na figura de Vulpix.
—
Não sei porquê, mas confio em ti — afirmou.
—
És a minha última esperança — revelou a raposa.
Clefairy
guiou Vulpix até ao interior da caverna. O corredor estreito abriu-se num
espaço largo e circular, iluminado pelo brilho suave de pequenos cristais
incrustados nas paredes. A luz refletia-se pelo teto, criando uma espécie de
céu estrelado. O chão da caverna era coberto por musgo seco, que isolava o frio
das rochas e tornava o local mais confortável. Junto a um pedregulho, várias
Clefairy dormiam enroladas umas nas outras. Mais ao fundo, numa cama circular
feita de largas folhas verdes, outra criatura permanecia de forma imponente.
Light
observava e admirava tudo ao seu redor. Conseguia sentir a tranquilidade e
familiaridade daquele local. Estremeceu, porém, quando o seu olhar se focou no
grande Pokémon rosa que agora se dirigia na sua direção. O rosto de Clefable,
habitualmente sereno, agora transmitia preocupação.
—
Hope? O que se passa? — perguntou, aproximando-se num passo firme.
—
Mãe… este é o Light. Ele precisa de ajuda — explicou Clefairy. — Está a ser
perseguido e…
—
Já falámos sobre isto — interrompeu Clefable. — Não podemos trazer estranhos
para dentro da nossa casa.
—
Eu não quero causar problemas — garantiu Vulpix, recuando ligeiramente. — Só
preciso de um sítio para descansar, por favor.
Clefable
cruzou os braços e observou a pequena raposa. O olhar era duro, mas havia
também um traço de preocupação. A Fairy Type reparou então que Light
parecia exausto e o seu corpo estava coberto de arranhões.
–—
Lamento, mas não sabemos quem és, quem te segue, nem os perigos que trazes
contigo. Não posso arriscar a segurança da minha família — respondeu, num tom
firme.
—
O Light está sozinho! Não podemos deixá-lo lá fora com esta tempestade, mãe! —
insistiu. — Eu continuo de vigia enquanto ele permanecer aqui.
—
Hope… – suspirou Clefable. — Já disse que… — o seu discurso foi interrompido
com um pensamento súbito. — Espera. Se estás aqui, então quem está a vigiar a
entrada da caverna?
Quando Light, Hope e Clefable
regressaram à entrada da caverna, já era tarde demais. Ouviu-se um grande
estrondo e, logo depois, o corpo de Graveler surgiu, lançando-se com Rollout
contra a parede exterior que protegia a família de Clefairy. Atrás de si, os
três Geodude reuniam pequenas rochas para arremessarem como ataque. A neve caía
agora de forma mais intensa, gelando a atmosfera à volta de todos os presentes.
—
Aqui está o ladrão das nossas Berries! — rosnou Graveler, apontando um dos
braços para Vulpix.
Light
deu um passo em frente, enchendo-se de coragem.
—
Eu não roubei nada! As Berries estavam na árvore!
—
Na nossa árvore! — contrapôs o Rock
Type.
— Deixem-nos em paz! — Hope
colocou-se ao lado do seu novo amigo, com um olhar decidido.
—
Sai da frente, princesa! — gritou um Geodude, preparando um Rock Throw.
Clefairy
fechou os olhos, pronta para o impacto, que nunca chegou. Num rápido movimento,
Vulpix saltou para a sua frente e lançou Ember contra o corpo de Geodude,
que recuou. Apesar de ferido, a rocha permanecia de pé e consciente.
Os
dois Pokémon trocaram olhares desafiadores, mas antes que algum deles voltasse
a atacar, a atenção voltou-se para outro elemento presente no local. Clefable
aproximou-se da frente de combate com um passo pesado, firme e decidido. Lançou
um olhar de agradecimento a Light e outro mais autoritário a Hope, antes de
encarar os seus adversários com um tom fulminante.
—
Hope, atrás de mim. Light, mantém-te por perto — disse, de forma autoritária. —
Agora, vocês, intrusos destruidores — anunciou, num tom áspero. — Ninguém se
mete com a minha família.
Clefable
levantou os braços e uma aura brilhante surgiu à volta do seu corpo. Disarming
Voice foi lançado na direção de um Geodude, que foi arremessado para longe
inconsciente.
—
Menos um — murmurou Vulpix.
—
Continuam dois de pé. E o Graveler — apontou Clefairy.
—
Eu tomo conta dele. Vocês os dois fiquem com os restantes — comandou Clefable,
assumindo a liderança da batalha.
Os mais novos assentiram e partiram
na direção dos seus adversários. Light disparou Incinerate contra um dos
Geodude, que se escapou e contra-atacou com Rock Throw, ferindo o Fire
Type em cheio. Do outro lado, o Moonblast de Hope parecia não causar
dano significativo no Rock Type.
No centro da arena de combate, Graveler
e Clefable avançavam na direção um do outro de forma persistente. O Magical Leaf
de Clefable foi anulado com o Rock Slide lançado pelo adversário. A Fairy
Type tentou escapar das rochas lançadas na sua direção, mas acabou por ser
ferida num dos braços. O seu olhar fulminou a figura do adversário, que
esboçava um sorriso trocista.
— Tens a certeza de que queres
continuar com isto? — a voz de Graveler era rouca, mas forte.
— Nunca desistirei de proteger a
minha família!
— Mas aquele Vulpix… não te
pertence. Por que insistes em protegê-lo?
— Porque ele precisa de ajuda. Isso
é motivo suficiente para mim e para a minha família — afirmou, num tom firme.
Do outro lado, Vulpix corria
agilmente entre os dois Geodude, desferindo Quick Attack entre um e
outro, enquanto Clefairy os envolvia num Fairy Wind. Isolados, os dois Rock
Type começavam, finalmente, a demonstrar alguma fraqueza. Mas o rugido de
Graveler fez com que ambos despertassem do transe e contra-atacassem com Bulldoze.
O abanão do solo fez os dois amigos caírem redondos, enquanto eram atingidos
por destroços de rochas que se levantavam da terra.
Light tremia no chão, sentindo-se
cada vez mais cansado e culpado. Não conseguia garantir que o seu corpo
aguentasse durante muito mais tempo e sentia-se realmente culpado por envolver
Hope e a sua família no conflito criado por si. Voltou o seu olhar brilhante
para a amiga, que se tentava levantar do chão, mas sem sucesso. O seu rosto
estava ferido, mas a força nos seus olhos parecia não desvanecer.
— Desculpa, Hope — soltou, entre
soluços. — A última coisa que eu queria era provocar-vos dor.
— Light, tu não és o culpado. Fui eu
que te quis ajudar, lembras-te?
— Obrigado... — murmurou, com a
lágrima a correr-lhe o rosto.
— É isto que os amigos fazem —
Clefairy esboçou um pequeno sorriso.
— Calem-se! — gritaram os dois
Geodude, lançando-se sobre ambos com Smack Down.
Vulpix e Clefairy foram arremessados
para longe. Os seus corpos estavam agora inconscientes, lado a lado. Clefable
deixou escapar um uivo de fúria quando se deu conta da vitória dos Geodude, que
agora se juntavam a Graveler.
— Eu avisei! — vociferou o Rock Type.
— Agora vais sofrer as consequências.
Foi
quando o ar aqueceu. Uma chama dourada surgiu do topo da caverna e atravessou o
recinto de batalha num arco perfeito. Era uma criatura grande e majestosa. Uma
raposa de pelo clara, nove caudas e um olhar que queimava todos aqueles que
atravessava. Ninetales aterrou de forma majestosa no solo. A sua pelagem
brilhava sob os flocos de neve que continuavam a cair.
Os
dois Geodude recuaram, escondendo-se atrás da figura de Graveler, que tinha
alguma dificuldade em disfarçar a surpresa que sentia naquele momento.
—
Vão pagar pelo que fizeram ao meu filho.
A
ameaça de Ninetales saiu numa voz calma. Sem perder mais tempo, a grande raposa
avançou com um Flamethrower que incendiou o ar, derretendo o gelo à sua
volta e atacando o grupo rochoso com fogo e água. Os dois Geodude caíram
redondos no chão. Graveler tentou resistir, mas o ataque era demasiado
poderoso. Caiu de joelhos na neve derretida, sentindo a água infiltrar-se pelo
seu corpo. O ataque da raposa prolongou-se durante vários segundos, garantindo
que não havia espaço para contra-ataques. O calor era tão intenso que até
Clefable teve de proteger o seu rosto.
Quando
o fogo cessou, Graveler estava ofegante, queimado e sem qualquer energia para retaliar.
O Rock Type levantou o olhar, encarando as duas figuras maternais à sua
frente.
—
Estava só a lutar pela sobrevivência da minha família — murmurou. — As Berries
que o Vulpix apanhou deveriam ser nossas.
—
O meu filho estava a recolher alimentos para os seus irmãos — explicou
Ninetales.
—
Nós não tínhamos mais comida. Aquelas Berries eram a nossa última esperança! —
cortou Geodude, olhando em volta. — E agora… causamos toda esta destruição.
—
Todos temos filhos e filhas que dependem de nós — Clefable deu um passo em
frente. — Todos lutamos por eles. É o instituto de sobrevivência, afinal.
Ninetales
assentiu. O seu olhar concentrava-se nas figuras inconsciente de Vulpix,
Clefairy e Geodude.Todos tinham sido apanhados num conflito maior do que os
próprios. Os seus olhos ganharam um tom mais suave e o peito mexeu-se num
suspiro longo e triste. A adrenalina da batalha perdera força, sendo
substituída pela profunda sensação de querer solucionar aquele conflito.
—
E se lutarmos em conjunto? — questionou.
•
• •
Uma
fogueira improvisada ardia no centro da caverna, iluminando o interior do local
com um tom quente e acolhedor. O aroma doce das Berries começava a preencher o
ar, misturando-se com o cheiro a musgo húmido e pedra fria.
Num
canto mais reservado da caverna, os corpos de Vulpix e Clefairy começavam a
ganhar consciência. Light abriu lentamente os olhos, sentindo primeiro o calor,
depois a dor suave que permanecia no seu corpo. Ao virar a cabeça, encontrou
Hope deitada ao seu lado, também a despertar.
—
Estás bem? — murmurou Clefairy, olhando em redor.
—
Acho que sim… — respondeu Vulpix, numa voz baixa. — Onde estão todos?
Hope
apontou para a zona central da caverna. Light sentou-se no solo e voltou-se
para encontrar um cenário surpreendente. Clefable estava sentada perto da
fogueira, distribuindo Berries em folhas largas às pequenas Clefairy. Ao seu
lado, Ninetales vigiava atentamente o fogo, com um olhar concentrado. Do outro
lado da fogueira, Graveler e os três Geodude repousavam, ainda com algumas
marcas da batalha, mas sem qualquer intenção hostil.
—
Light! — exclamou Ninetales, apercebendo-se de que o mais novo despertara
finalmente. Correu na sua direção e tocou-lhe suavemente com o focinho. —
Estava preocupada contigo.
—
Mãe… desculpa — murmurou ele, envergonhado. — Só queria ajudar…
—
Conseguiste ajudar, querido — corrigiu Ninetales, com uma voz doce. — E fizeste
novos amigos pelo caminho.
Clefable
também se aproximou, abraçando Clefairy com um sorriso cansado, mas sincero.
—
Já passou — afirmou. — Agora venham comer, antes que arrefeça.
O grupo aproximou-se do centro da
caverna e sentou-se à volta da fogueira. Light e Hope sentaram-se lado a lado,
enquanto Clefable lhes colocava à frente um conjunto variado de Berries,
cuidadosamente cedidas e preparadas por Ninetales.
—
Estas Berries são para todos — afirmou a raposa.
—
E esta caverna pode abrigar várias famílias — sorriu a Fairy Type.
—
Partilhar é melhor do que destruir — concordou Graveler, aproximando-se do
grupo.
Vulpix, Clefairy e Geodude
entreolharam-se, surpresos com a transformação dos mais velhos.
— Aprendemos muito com vocês —
confirmou Clefable.
—
Nós exagerámos — admitiu o Rock Type, com dificuldade. — Estávamos
desesperados e lutámos pelos motivos errados.
—
Não há vergonha em lutar pela nossa família — respondeu Ninetales. – Mas é
necessário reconhecer quando é altura de parar.
Os
Geodude assentiram timidamente, aproximando-se da fogueira. Cada um recebeu o
seu pequeno conjunto de Berries.
—
Podemos ajudar a reparar o que destruímos lá fora — falou um deles, hesitante.
— Posso juntar-me a vocês! —
exclamou Vulpix.
—
Isso seria bom — concordou Clefairy. — Trabalhar juntos é mais divertido do que
lutar.
Light
esboçou um sorriso de gratidão. O calor da fogueira parecia intensificar-se
dentro dele, como se algo se tivesse finalmente alinhado no seu pequeno mundo. Ninetales
pousou a sua cauda sobre o dorso do filho, num gesto de ternura.
—
Devíamos aproveita para descansar, querido. Amanhã, quando a tempestade passar,
vamos encontrar o caminho de volta para casa.
—
E… eu posso visitá-lo? — perguntou Clefairy, inclinando a cabeça com um brilho
de esperança nos olhos.
Ninetales esboçou um sorriso, mas
voltou o olhar para Clefable que se juntou à cena de braços abertos.
—
Claro que sim, minha pequena — respondeu.
—
Obrigado! — grunhiu Vulpix. — Parece que a nossa família acabou de ficar maior.
Hope
riu-se baixinho, encostando-se ao ombro de Light. A fogueira continuou a arder,
iluminando o grupo de criaturas improváveis, unidos não pela força, mas pela
compreensão. Enquanto a tempestade continuava lá fora, no interior da caverna
reinava algo muito mais poderoso. Pela primeira vez naquela noite, todos
sentiram a mesma coisa: segurança, esperança e paz.
Notas do Autor - Prólogo
Oi pessoal, e aí? Como vocês tão?
Talvez seja meio cara de pau aparecer aqui depois de (mais de) 1 ano sem capítulo novo né?
Eu passei por alguns estresses pessoais envolvendo o mestrado que tô fazendo (e tentando a muito custo terminar) e acabei deixando a escrita de Aventuras em Kanto de lado por um tempo. Mas nunca esqueci a história em si.
As vezes, quando ia dormir, depois de um dia estressante, depressivo ou enfurecedor, eu colocava umas músicas de anime e imaginava aberturas e AMVs de AeK até cair no sono.
Então sim, eu não desisti da história. Tenho ideias muito legais que eu quero escrever ainda no universo de Pokémon.
Inclusive, quero agradecer a Aliança como um todo, que mesmo com as piadas de "KILL, VAI ESCREVER", "CADÊ AEK" ou "BAN NO KILL" sempre deixou claro que respeitam o tempo de cada autor, e que esse é o modo deles de falar "SUA HISTÓRIA É MUITO INTERESSANTE, EU QUERO LER MAIS!".
Então apesar de as vezes eu ter pensado que eu estava atrapalhando eles em alguma coisa por demorar tanto de escrever, eu nem tinha tempo de expressar isso, porque em 2 segundos alguem vinha falar que entendia o tempo que estava tomando, e que não era pra eu me pressionar a escrever na pressa. E que apesar do meu sumiço, eu sabia que depois de passar 3 horas tentando entender um artigo e ficar com vontade de bater a cabeça na mesa, eu podia entrar no servidor do discord e dar risada com vocês.
Dito isso, eu acho que errei com o Red. Quer dizer, eu ainda acho que ele devia passar por grandes derrotas e apanhar bastante pra crescer, mas na época em que escrevi os ultimos capitulos, eu mesmo estava tão mal dentro de minha cabeça que acabei descontanto tudo no Red. E apesar disso talvez fazer ele um personagem mais real, de um ponto de vista narrativo, eu não sabia mais o que fazer com ele. Eu mesmo não me sentia mais daquele jeito, e não queria escrever sobre aquilo daquela forma.
Passei muito tempo pensando se devia ou não rebootar a história. Por muito tempo pensei que não deveria. O Dento e o Canas foram exemplos que levei de que a história podia mudar a partir dali e ser incrivel. Mas eu continuava sem estar satisfeito e nem sabia como evoluir. Era um incomodo pessoal que eu tinha em do nada mudar a tristeza do Red sem explicação.
Há algum tempo decidi rebootar a história. Talvez "remaster" seja um termo melhor, pensando em termos de video-game... Elementos e eventos-chave ainda acontecerão como na versão antiga da história (então leitores antigos sabem o que esperar do Museu de Pewter), mas quero mudar um pouco a forma que escrevi, a personalidade e a reação dos personagens (incluindo Pokémon), e devo dizer que estou bem ansioso para ver como vai ficar "no papel" o que eu estou pensando, e o que vocês vão achar disso.
Enfim, já me alonguei demais explicando toda a jornada da nova versão de Aventuras em Kanto. Para os leitores antigos, espero que este prólogo seja familiar, mas traga novas sensações. Para os novos leitores, espero que gostem e digam aí o que acharam!
Smell ya later!
Prólogo
— O
que está acontecendo?! — perguntava a voz desesperada que vinha das caixas de
som espalhadas pela sala de comando.
O
pânico não demorou a tomar conta do local com o soar do alarme sonoro de
emergência e das luzes vermelhas que piscavam. Técnicos e operadores corriam em
todas as direções. Alguns ainda tentavam resolver as centenas de problemas que
surgiam do nada, mas a maioria já havia cedido ao caos iminente.
— Ele
quebrou as amarras! Está tentando sair da jaula! — respondeu amedrontada uma
das operadoras pelo microfone em sua mesa, ao mesmo tempo em que digitava
dezenas de comandos, tentando em vão isolar algumas áreas daquela instalação.
— Não
deixem quem escape! Estou... — as pessoas na sala aguardaram ainda alguns
segundos, sem perceber que a comunicação foi interrompida abruptamente.
Em
outra área da instalação, a origem do caos era clara. Em um cômodo que os
funcionários chamavam de “Jaula” fiações estavam expostas no teto, equipamentos
revirados, cacos de vidro espalhados e corpos humanos jaziam no chão. Os que
ainda vivam estavam em seus últimos momentos, mas pensavam que estavam com
sorte, porque sabiam que a criatura que estava em sua frente, apesar de extremamente
poderosa, trajava uma armadura que restringia sua força física e mental.
A
criatura odiava trajá-la. Há muito tempo fora condenada a usá-la, como uma
camisa de força, não demorando em se tornar uma prisão. Não foi muito tempo
depois que criou consciência de si e do mundo ao seu redor fora encarcerado nela.
Os humanos moviam a criatura para vários locais, mas não havia liberdade. Sua
prisão estava logo ali, sempre em contato com sua pele, roubando-lhe o tato.
Mas
não precisava disso. Ninguém a tocaria. Não receberia afeto. A única função do
tato era sentir o frio solitário do metal.
Porém
mesmo sem tato ela sentia dor. Lembrava apenas de um brevíssimo tempo em sua
vida antes da armadura, mas em sua primeira demonstração de poder, sufocaram-na
com aquilo e agora usar seu poder trazia dores de cabeça que chegavam ao seu
âmago. E como se não fosse suficiente estava sempre sendo testado por aqueles
humanos.
Que
tipo de mente doentia iria querer testá-lo, mas ao mesmo tempo limitaria suas
capacidades?
“Quem
sou eu?” foi o que ele pensou durante anos. “Por que eu estou aqui?” repetia
para si mesmo.
Mas
nesse dia, seu pensamento foi outro:
“Eu
estou pronto.”
E por
isso que estava ali naquele momento. Usando seus poderes para segurar uma dúzia
de soldados sem que precisasse encostar um único dedo, apesar da dor que sentia.
Estava disposto a usá-los para ter a chance de descobrir o que ele era de
verdade, mesmo que fosse a última vez que o fizesse.
Ouviu
passos ritmados e pesados se aproximando e parando atrás da porta mecânica do
cômodo em que estava: A jaula, mais uma de suas prisões.
“Eles
estão lá fora... Onde eu devo estar!”
Com o
impulso desse pensamento, estendeu o braço em direção aos soldados caídos a sua
frente e cerrou o punho. Um coro de gritos altos e breves estourou no ar
enquanto os corpos se contorciam, moldados pelo seu punho, implodindo e virando
apenas uma massa amorfa de carne, entranhas e sangue.
Voltou
sua atenção para a saída do cômodo, e com um impulso de raiva em sua mente, fez
a pesada porta de metal ser arremessada para fora como se ali dentro tivesse
sido explodido uma poderosa bomba. A parede oposta fora manchada com densas
gotas sangue fresco dos soldados esmagados.
Os
outros soldados sacaram suas PokéBolas e convocaram uma equipe de Sandslash que
prontamente atacaram com Pin Missile. A criatura quase acharia graça, se
soubesse o que era esse sentimento, quando viu a expressão de choque dos
humanos ao seu redor. Eles não podiam acreditar no que viam: todos os projeteis
atirados pelos seus Pokémon estavam parados no ar, como se tivessem sido
detidos por algum tipo de barreira invisível. Mas não havia barreira. Ele
segurava cada projetil individualmente com sua mente em fúria, e quando decidiu
que já podia soltá-los, fez com que voltassem para a direção que vieram.
Alguns
segundos se passaram. Todos no prédio sentiram que suas cabeças iam explodir.
Alguns desmaiaram e convulsionaram, outros com mais sorte apenas sangraram pelo
nariz e pelas orelhas. Aquela era só uma amostra pequena dos poderes d’A
Criatura: Ele apenas enviara uma mensagem psíquica propagada em onda pelo
prédio.
“QUEM
SOU EU?”
O
prédio inteiro tremeu, mas pela primeira vez naquele dia, não era culpa dela.
***
A
cidade tremera, mas quase ninguém se importou, afinal, eles moravam na Ilha
Cinnabar, terremotos eram comuns aos moradores da pequena cidade que existia
ali. Há alguns milênios, pessoas decidiram se assentar naquela terra. O solo
era fértil e conseguiam plantar de tudo um pouco para sua subsistência. A
distância do continente os deixara longe de qualquer tipo de guerra e intrigas
políticas.
O
único perigo de morar ali era o grande vulcão homônimo, mas há muito ele não
entrara em erupção. Os mais antigos ainda contam histórias que ouviram de seus
avós, que ouviram dos avós deles e assim por diante; de como o vulcão só
atacava se fosse enfurecido, mas que seu espírito era honesto e justo e por
isso os deixara viver em sua terra, contato que fossem boas pessoas.
Duas
décadas atrás, um laboratório foi construído na pequena vila. Cientistas se
interessaram muito pela área e começaram a vim de vários lugares de Kanto para
estudar. Aquilo impulsionou a cidade fazendo-a crescer, mas ainda era uma das
menores de todo o continente, já que não recebiam muitos forasteiros que não
fossem estudiosos ou turistas, ambos só ficavam temporariamente na ilha até
cumprir seus objetivos e voltarem para suas casas no continente.
Os
locais gostavam de rir dos forasteiros que se desesperavam com os tremores
constantes. Aquilo era parte do cotidiano por ali e todos se acostumavam com
isso antes mesmo de aprender a andar.
Por
isso naquele dia, ninguém se importou quando a ilha tremeu.
Pelo
menos da primeira vez.
Logo
os tremores ficaram mais frequentes e mais fortes. Aos poucos as pessoas
começaram a fazer comentários.
“Nossa,
hoje tá tremendo, né?”, perguntavam entre si de maneira despretensiosa.
Mas
logo esses comentários insignificantes deram lugar à preocupação genuína. Uma
sirene rompeu o som do burburinho nas ruas, avisando que todos deveriam buscar
um lugar seguro para se abrigar. Alguns gritos desesperados puderam ser
ouvidos, apesar de poucos. As erupções eram raras, mas todos os nativos dali
faziam treinamento desde pequenos na escola para esse tipo de situação.
O
Grande Vulcão, no entanto, não tinha tempo para se preocupar com protocolos.
Antes de qualquer pessoa ter chance de começar a buscar um local seguro, ele
fez tremer todo seu corpo e rugiu com a força de um trovão que vinha debaixo da
terra, como quem liberava uma imensa raiva. Muitas pessoas cederam ao desespero
e gritaram junto.
Todos
ficaram atônitos ao verem o que acontecia no topo da montanha: uma nuvem de gás
já cobria o céu próximo e pontos cintilantes saltavam e pareciam parte de um grande
show.
E
antes que pudessem esperar uma enorme coluna de terra e detritos se ergueu,
rasgando o chão diante dos olhos de todos. Seu brilho era lindo, mas o
sentimento que transmitia era de terror. A cor da lava era quase hipnótica em
beleza e pavor. Junto dela desceu pela encosta a nuvem piroclástica, uma visão
única de uma fumaça quase sólida formada de gás, cinzas e pedras que prendia a
atenção de quem olhava, mas trazia consigo o toque da morte. Se aquilo era
realmente parte de um show, tinha saído de uma mente insana.
Todos
observaram em choque o topo da montanha. Até hoje ninguém sabe explicar como a
lava e a nuvem de cinzas não se estenderam na encosta em direção à cidade, mas
percorreu quilômetros nas outras direções. Os mais velhos dizem que o Grande
Vulcão devia estar com raiva de algum alpinista sem noção que desrespeitara o
local. Mesmo assim, não dava para explicar a visão que todos tiveram de uma
criatura saindo da nuvem de fumaça, ilesa, voando em alta velocidade para o
norte, cruzando o céu alaranjado do crepúsculo.
***
Rumando
em direção a céu, ele se mantinha em linha reta enquanto cruzava a espessa e
opaca nuvem de gás. Em meio à luta, calor, destroços e fumaça, sua armadura
ruía pouco a pouco, se partindo em pedaços que ficavam para trás e caiam em
direção ao solo. Pela primeira vez a sensação gélida do metal foi substituída
por um imenso calor que fazia arder sua pele, mas o deixava feliz.
Ao
deixar a nuvem de fumaça para trás, a criatura parou por um segundo e observou
a paisagem.
A
porção do prédio que ficava acima do solo estava em destroços, e provavelmente
o que estava no subsolo estaria inacessível, tomado pela gelada água do mar.
A lava
sendo expelida do topo da montanha era linda e perigosa, assim como sua própria
natureza. Ela gostou disso. Era poético.
A
cidade próxima com humanos correndo em desespero, como formigas assistindo a um
pé vindo para esmagá-las. De certa forma, ele se sentiu vingado.
Antes
de continuar seu trajeto sem rumo com o único objetivo de deixar essa ilha e
seu passado para trás, ele teve um último pensamento.
“Eu
sou o Pokémon mais forte do mundo.
Mais
forte até do que o Mew.”

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AeK OPENING 1






















