Capítulo Especial de Natal


A noite em que a esperança e a paz se cruzaram

 

A noite estava fria. A luz da lua tentava espreitar pelos ramos das grandes árvores, mas a escuridão reinava naquele momento. Aproximava-se uma tempestade a toda a velocidade.


Uma criatura de quatro patas saltou dos arbustos, correndo sem rumo. Respirava de forma ofegante enquanto os músculos das suas pequenas patas se esforçavam para correr sem parar. O pelo do seu corpo acastanhado permitia que o Pokémon se camuflasse entre a escuridão da noite, mas as suas seis caudas avermelhadas não passavam despercebidas.



Num rápido movimento, os olhos escuros de Vulpix espreitaram para trás, na direção oposta em que corria. Um grupo de rochas castanho-acinzentadas com braços musculados saltitava na sua direção. Os três Geodude eram liderados por uma criatura rochosa mais volumosa. O seu corpo era coberto de saliências e caracterizava-se por ter quatro braços fortes. Graveler rebolava pelo chão a toda velocidade, passando entre arbustos e saltando entre as raízes das árvores.



— Por favor, deixem-me em paz! — grunhiu a raposa, enquanto continuava a correr.


— Demasiado tarde! — a voz de Graveler era imponente. — Não podes roubar-nos comida e depois fugir sem sofrer as devidas consequências.


— Mas a comida não era vossa! — insistiu Vulpix, tentando contrariar o medo que sentia. — As Berries estavam na árvore.


Várias rochas foram arremessadas na direção do felino, que se esquivou agilmente de todas. O Rock Throw de Graveler não seria suficiente para travar Vulpix, que estava focado em regressar a casa, para os braços da sua mãe. A raposa expirou uma grande chama de tons laranja na direção de dois arbustos, desaparecendo atrás dos dois. Ouviram-se pequenas explosões à medida que as chamas altas de Incinerate consumiam os ramos e as folhas das verduras rastejantes. O fumo provocado pelas chamas foi suficiente para atordoar as criaturas rochosas, sem rumo entre a escuridão da noite e a ameaça do fogo.


Vulpix continuou a correr desenfreadamente. Queria certificar-se que conseguia estabelecer uma distância segura dos seus predadores. Finalmente, encontrou uma árvore suficientemente alta que pudesse utilizar como refúgio. Trepou pelos grossos e longos ramos e espreitou pelo horizonte. Ao longe, conseguia distinguir pequenas chamas e o fumo negro que provocara. Lamentava o cenário de destruição que causara, mas o seu instinto de sobrevivência falara mais alto, tal como a sua mãe ensinara.


Esboçou um pequeno sorriso, ao lembrar-se da sua família. A mãe pedira-lhe que fosse recolher mantimentos para si e os seus irmãos. A tarefa rotineira acabou por se transformar numa aventura noturna, depois de Vulpix tentar explorar uma área diferente da habitual. Recordava-se da mãe o avisar múltiplas vezes: “Tem cuidado por onde andas, Light. Nem todos os Pokémon querem ser nossos amigos”. Mas o pequeno felino nunca percebera realmente o que a mãe queria dizer. Agora, começava a ter um vislumbre disso mesmo.


Os seus pensamentos foram interrompidos por um ruído. Entre os ramos das árvores, conseguiu identificar os corpos dos três Geodude e de Graveler. Em grupo, desferiam vários Rollout contra diferentes troncos e arbustos. Pareciam desvairados, cegos por encontrar Vulpix e vingarem-se.


Seria uma questão de tempo até o voltarem a encontrar. Não podia permanecer no topo daquela árvore para sempre. Mas Vulpix não sabia para onde ir. Entre a escuridão da noite e toda a corrida para escapar às ameaças dos oponentes rochosos, a raposa afastara-se bastante do território que conhecia. Não sabia para onde ir. Pior ainda: não sabia como voltar para casa.

 

• • •

 

Um par de pequenos olhos observavam atentamente a lua. A pequena figura de corpo rosa focava-se na sua luz, concentrando as suas forças e energias. Atrás de si, erguia-se a entrada para uma caverna. A sua missão era protegê-la, mas Clefairy não parecia muito preocupada com isso.



Levantou os pequenos braços e, em simultâneo, as pontas acastanhadas das suas orelhas mexeram-se involuntariamente. Depois, as suas pernas, imóveis até então, começaram a mexer-se. Iluminada pela lua, Clefairy dançava harmoniosamente. Fazia-o de forma quase involuntária: era apaixonada por dançar ao luar.


Pequenos flocos de neve começaram a cair do céu. O vento gelado também já se fazia sentir. A tempestade chegara. Mas, mais uma vez, nada era mais importante para Clefairy do que a luz noturna emitida pela lua.


-— Já te disse, Hope! — ouviu-se uma voz estridente. — Tens de te concentrar quando estás de vigia.


Clefairy despertou rapidamente e voltou-se na direção da voz, encontrando uma figura alta de corpo rosa. Nas suas costas, pequenas asas de tom púrpura salientavam a sua beleza. Os olhos de Clefable fitavam a figura da pequena criatura.



— Desculpa, mãe. Mas é tão aborrecido estar aqui — lamentou. — Sabes que nunca acontece nada. Todas as famílias têm as suas cavernas. É mesmo necessário continuarmos neste sistema de vigia?


— É claro que sim! Não sejas tonta. Já falámos sobre isto — afirmou, severamente. — Vou voltar para dentro e vigiar as tuas irmãs. Concentra-te! — exclamou, antes de voltar para o interior da caverna.


Clefairy assentiu e voltou-se para a frente. Sentiu de novo a luz do luar incidir sobre o seu corpo, mas desta vez esforçou-se para não ceder à tentação. Vigiar a entrada da caverna era uma tarefa que a sua mãe lhe tinha atribuído por ser a filha mais velha. Mas era, de facto, uma missão enfadonha. Agora, relembrava as palavras repetidas vezes sem conta pela mãe: “Fazes ideia do que aconteceria se um Pokémon selvagem nos atacasse? Quem nos iria proteger a todas?”.


A criatura assentiu, em silêncio. Sentou-se no chão e focou o seu olhar no horizonte à sua frente. Sempre sonhara em dançar para lá da caverna da sua família. Mas as responsabilidades para com a sua mãe e irmãs sempre falaram mais alto. Seria assim para sempre. Ou, até quando deixassem de precisar dela.


Absorta nas suas reflexões, Clefairy nem se deu conta do passo apressado de uma criatura que se aproximava da entrada da caverna.


— Olá.


Clefairy levantou o olhar e surpreendeu-se com o Vulpix à sua frente. Não era habitual encontrar aquela espécie junto de Mt. Moon.


— Olá? — respondeu, surpresa.


— Desculpa incomodar-te — a pequena raposa estava inquieta e nervosa. — Preciso de ajuda.


— Oh… — murmurou a criatura rosa, curiosa. — O que se passa?


— Estou a ser perseguido. Preciso de me esconder — explicou, atravessando o olhar pela entrada da caverna, atrás de Clefairy.


— Certo… — assentiu. — A minha mãe não gosta muito que levemos estranhos para a nossa caverna.


— Eu compreendo. Mas, não tenho para onde ir. Não sei como voltar para casa. — os grunhidos de Vulpix começavam a revelar a sua fragilidade.


— Que horror — suspirou a outra. — Muito bem. Vou tentar ajudar-te.


— Obrigado! — exclamou, dando um pulo. — Como te chamas?


— Sou a Hope. E tu?


— O meu nome é Light.


Clefairy esboçou um pequeno sorriso e, por momentos, voltou o seu olhar para a lua. Depois, assentiu e concentrou-se na figura de Vulpix.


— Não sei porquê, mas confio em ti — afirmou.


— És a minha última esperança — revelou a raposa.

 

Clefairy guiou Vulpix até ao interior da caverna. O corredor estreito abriu-se num espaço largo e circular, iluminado pelo brilho suave de pequenos cristais incrustados nas paredes. A luz refletia-se pelo teto, criando uma espécie de céu estrelado. O chão da caverna era coberto por musgo seco, que isolava o frio das rochas e tornava o local mais confortável. Junto a um pedregulho, várias Clefairy dormiam enroladas umas nas outras. Mais ao fundo, numa cama circular feita de largas folhas verdes, outra criatura permanecia de forma imponente.


Light observava e admirava tudo ao seu redor. Conseguia sentir a tranquilidade e familiaridade daquele local. Estremeceu, porém, quando o seu olhar se focou no grande Pokémon rosa que agora se dirigia na sua direção. O rosto de Clefable, habitualmente sereno, agora transmitia preocupação.


— Hope? O que se passa? — perguntou, aproximando-se num passo firme.


— Mãe… este é o Light. Ele precisa de ajuda — explicou Clefairy. — Está a ser perseguido e…


— Já falámos sobre isto — interrompeu Clefable. — Não podemos trazer estranhos para dentro da nossa casa.


— Eu não quero causar problemas — garantiu Vulpix, recuando ligeiramente. — Só preciso de um sítio para descansar, por favor.


Clefable cruzou os braços e observou a pequena raposa. O olhar era duro, mas havia também um traço de preocupação. A Fairy Type reparou então que Light parecia exausto e o seu corpo estava coberto de arranhões.


–— Lamento, mas não sabemos quem és, quem te segue, nem os perigos que trazes contigo. Não posso arriscar a segurança da minha família — respondeu, num tom firme.


— O Light está sozinho! Não podemos deixá-lo lá fora com esta tempestade, mãe! — insistiu. — Eu continuo de vigia enquanto ele permanecer aqui.


— Hope… – suspirou Clefable. — Já disse que… — o seu discurso foi interrompido com um pensamento súbito. — Espera. Se estás aqui, então quem está a vigiar a entrada da caverna?


            Quando Light, Hope e Clefable regressaram à entrada da caverna, já era tarde demais. Ouviu-se um grande estrondo e, logo depois, o corpo de Graveler surgiu, lançando-se com Rollout contra a parede exterior que protegia a família de Clefairy. Atrás de si, os três Geodude reuniam pequenas rochas para arremessarem como ataque. A neve caía agora de forma mais intensa, gelando a atmosfera à volta de todos os presentes.


— Aqui está o ladrão das nossas Berries! — rosnou Graveler, apontando um dos braços para Vulpix.


Light deu um passo em frente, enchendo-se de coragem.


— Eu não roubei nada! As Berries estavam na árvore!


— Na nossa árvore! — contrapôs o Rock Type.


            — Deixem-nos em paz! — Hope colocou-se ao lado do seu novo amigo, com um olhar decidido.


— Sai da frente, princesa! — gritou um Geodude, preparando um Rock Throw.


Clefairy fechou os olhos, pronta para o impacto, que nunca chegou. Num rápido movimento, Vulpix saltou para a sua frente e lançou Ember contra o corpo de Geodude, que recuou. Apesar de ferido, a rocha permanecia de pé e consciente.


Os dois Pokémon trocaram olhares desafiadores, mas antes que algum deles voltasse a atacar, a atenção voltou-se para outro elemento presente no local. Clefable aproximou-se da frente de combate com um passo pesado, firme e decidido. Lançou um olhar de agradecimento a Light e outro mais autoritário a Hope, antes de encarar os seus adversários com um tom fulminante.


— Hope, atrás de mim. Light, mantém-te por perto — disse, de forma autoritária. — Agora, vocês, intrusos destruidores — anunciou, num tom áspero. — Ninguém se mete com a minha família.


Clefable levantou os braços e uma aura brilhante surgiu à volta do seu corpo. Disarming Voice foi lançado na direção de um Geodude, que foi arremessado para longe inconsciente.


— Menos um — murmurou Vulpix.


— Continuam dois de pé. E o Graveler — apontou Clefairy.


— Eu tomo conta dele. Vocês os dois fiquem com os restantes — comandou Clefable, assumindo a liderança da batalha.


            Os mais novos assentiram e partiram na direção dos seus adversários. Light disparou Incinerate contra um dos Geodude, que se escapou e contra-atacou com Rock Throw, ferindo o Fire Type em cheio. Do outro lado, o Moonblast de Hope parecia não causar dano significativo no Rock Type.


            No centro da arena de combate, Graveler e Clefable avançavam na direção um do outro de forma persistente. O Magical Leaf de Clefable foi anulado com o Rock Slide lançado pelo adversário. A Fairy Type tentou escapar das rochas lançadas na sua direção, mas acabou por ser ferida num dos braços. O seu olhar fulminou a figura do adversário, que esboçava um sorriso trocista.


            — Tens a certeza de que queres continuar com isto? — a voz de Graveler era rouca, mas forte.


            — Nunca desistirei de proteger a minha família!


            — Mas aquele Vulpix… não te pertence. Por que insistes em protegê-lo?


            — Porque ele precisa de ajuda. Isso é motivo suficiente para mim e para a minha família — afirmou, num tom firme.


            Do outro lado, Vulpix corria agilmente entre os dois Geodude, desferindo Quick Attack entre um e outro, enquanto Clefairy os envolvia num Fairy Wind. Isolados, os dois Rock Type começavam, finalmente, a demonstrar alguma fraqueza. Mas o rugido de Graveler fez com que ambos despertassem do transe e contra-atacassem com Bulldoze. O abanão do solo fez os dois amigos caírem redondos, enquanto eram atingidos por destroços de rochas que se levantavam da terra.


            Light tremia no chão, sentindo-se cada vez mais cansado e culpado. Não conseguia garantir que o seu corpo aguentasse durante muito mais tempo e sentia-se realmente culpado por envolver Hope e a sua família no conflito criado por si. Voltou o seu olhar brilhante para a amiga, que se tentava levantar do chão, mas sem sucesso. O seu rosto estava ferido, mas a força nos seus olhos parecia não desvanecer.


            — Desculpa, Hope — soltou, entre soluços. — A última coisa que eu queria era provocar-vos dor.


            — Light, tu não és o culpado. Fui eu que te quis ajudar, lembras-te?


            — Obrigado... — murmurou, com a lágrima a correr-lhe o rosto.


            — É isto que os amigos fazem — Clefairy esboçou um pequeno sorriso.


            — Calem-se! — gritaram os dois Geodude, lançando-se sobre ambos com Smack Down.


            Vulpix e Clefairy foram arremessados para longe. Os seus corpos estavam agora inconscientes, lado a lado. Clefable deixou escapar um uivo de fúria quando se deu conta da vitória dos Geodude, que agora se juntavam a Graveler.


            — Eu avisei! — vociferou o Rock Type. — Agora vais sofrer as consequências.


Foi quando o ar aqueceu. Uma chama dourada surgiu do topo da caverna e atravessou o recinto de batalha num arco perfeito. Era uma criatura grande e majestosa. Uma raposa de pelo clara, nove caudas e um olhar que queimava todos aqueles que atravessava. Ninetales aterrou de forma majestosa no solo. A sua pelagem brilhava sob os flocos de neve que continuavam a cair.



Os dois Geodude recuaram, escondendo-se atrás da figura de Graveler, que tinha alguma dificuldade em disfarçar a surpresa que sentia naquele momento.


— Vão pagar pelo que fizeram ao meu filho.


A ameaça de Ninetales saiu numa voz calma. Sem perder mais tempo, a grande raposa avançou com um Flamethrower que incendiou o ar, derretendo o gelo à sua volta e atacando o grupo rochoso com fogo e água. Os dois Geodude caíram redondos no chão. Graveler tentou resistir, mas o ataque era demasiado poderoso. Caiu de joelhos na neve derretida, sentindo a água infiltrar-se pelo seu corpo. O ataque da raposa prolongou-se durante vários segundos, garantindo que não havia espaço para contra-ataques. O calor era tão intenso que até Clefable teve de proteger o seu rosto.


Quando o fogo cessou, Graveler estava ofegante, queimado e sem qualquer energia para retaliar. O Rock Type levantou o olhar, encarando as duas figuras maternais à sua frente.


— Estava só a lutar pela sobrevivência da minha família — murmurou. — As Berries que o Vulpix apanhou deveriam ser nossas.


— O meu filho estava a recolher alimentos para os seus irmãos — explicou Ninetales.


— Nós não tínhamos mais comida. Aquelas Berries eram a nossa última esperança! — cortou Geodude, olhando em volta. — E agora… causamos toda esta destruição.


— Todos temos filhos e filhas que dependem de nós — Clefable deu um passo em frente. — Todos lutamos por eles. É o instituto de sobrevivência, afinal.


Ninetales assentiu. O seu olhar concentrava-se nas figuras inconsciente de Vulpix, Clefairy e Geodude.Todos tinham sido apanhados num conflito maior do que os próprios. Os seus olhos ganharam um tom mais suave e o peito mexeu-se num suspiro longo e triste. A adrenalina da batalha perdera força, sendo substituída pela profunda sensação de querer solucionar aquele conflito.


— E se lutarmos em conjunto? — questionou.

 

• • •

 

Uma fogueira improvisada ardia no centro da caverna, iluminando o interior do local com um tom quente e acolhedor. O aroma doce das Berries começava a preencher o ar, misturando-se com o cheiro a musgo húmido e pedra fria.


Num canto mais reservado da caverna, os corpos de Vulpix e Clefairy começavam a ganhar consciência. Light abriu lentamente os olhos, sentindo primeiro o calor, depois a dor suave que permanecia no seu corpo. Ao virar a cabeça, encontrou Hope deitada ao seu lado, também a despertar.


— Estás bem? — murmurou Clefairy, olhando em redor.


— Acho que sim… — respondeu Vulpix, numa voz baixa. — Onde estão todos?


Hope apontou para a zona central da caverna. Light sentou-se no solo e voltou-se para encontrar um cenário surpreendente. Clefable estava sentada perto da fogueira, distribuindo Berries em folhas largas às pequenas Clefairy. Ao seu lado, Ninetales vigiava atentamente o fogo, com um olhar concentrado. Do outro lado da fogueira, Graveler e os três Geodude repousavam, ainda com algumas marcas da batalha, mas sem qualquer intenção hostil.


— Light! — exclamou Ninetales, apercebendo-se de que o mais novo despertara finalmente. Correu na sua direção e tocou-lhe suavemente com o focinho. — Estava preocupada contigo.


— Mãe… desculpa — murmurou ele, envergonhado. — Só queria ajudar…


— Conseguiste ajudar, querido — corrigiu Ninetales, com uma voz doce. — E fizeste novos amigos pelo caminho.


Clefable também se aproximou, abraçando Clefairy com um sorriso cansado, mas sincero.


— Já passou — afirmou. — Agora venham comer, antes que arrefeça.


            O grupo aproximou-se do centro da caverna e sentou-se à volta da fogueira. Light e Hope sentaram-se lado a lado, enquanto Clefable lhes colocava à frente um conjunto variado de Berries, cuidadosamente cedidas e preparadas por Ninetales.


— Estas Berries são para todos — afirmou a raposa.


— E esta caverna pode abrigar várias famílias — sorriu a Fairy Type.


— Partilhar é melhor do que destruir — concordou Graveler, aproximando-se do grupo.


            Vulpix, Clefairy e Geodude entreolharam-se, surpresos com a transformação dos mais velhos.


            — Aprendemos muito com vocês — confirmou Clefable.


— Nós exagerámos — admitiu o Rock Type, com dificuldade. — Estávamos desesperados e lutámos pelos motivos errados.


— Não há vergonha em lutar pela nossa família — respondeu Ninetales. – Mas é necessário reconhecer quando é altura de parar.


Os Geodude assentiram timidamente, aproximando-se da fogueira. Cada um recebeu o seu pequeno conjunto de Berries.


— Podemos ajudar a reparar o que destruímos lá fora — falou um deles, hesitante.


            — Posso juntar-me a vocês! — exclamou Vulpix.


— Isso seria bom — concordou Clefairy. — Trabalhar juntos é mais divertido do que lutar.


Light esboçou um sorriso de gratidão. O calor da fogueira parecia intensificar-se dentro dele, como se algo se tivesse finalmente alinhado no seu pequeno mundo. Ninetales pousou a sua cauda sobre o dorso do filho, num gesto de ternura.


— Devíamos aproveita para descansar, querido. Amanhã, quando a tempestade passar, vamos encontrar o caminho de volta para casa.


— E… eu posso visitá-lo? — perguntou Clefairy, inclinando a cabeça com um brilho de esperança nos olhos.


            Ninetales esboçou um sorriso, mas voltou o olhar para Clefable que se juntou à cena de braços abertos.


— Claro que sim, minha pequena — respondeu.


— Obrigado! — grunhiu Vulpix. — Parece que a nossa família acabou de ficar maior.


Hope riu-se baixinho, encostando-se ao ombro de Light. A fogueira continuou a arder, iluminando o grupo de criaturas improváveis, unidos não pela força, mas pela compreensão. Enquanto a tempestade continuava lá fora, no interior da caverna reinava algo muito mais poderoso. Pela primeira vez naquela noite, todos sentiram a mesma coisa: segurança, esperança e paz.


Notas do Autor - Prólogo


Oi pessoal, e aí? Como vocês tão?

Talvez seja meio cara de pau aparecer aqui depois de (mais de) 1 ano sem capítulo novo né?

Eu passei por alguns estresses pessoais envolvendo o mestrado que tô fazendo (e tentando a muito custo terminar) e acabei deixando a escrita de Aventuras em Kanto de lado por um tempo. Mas nunca esqueci a história em si.

As vezes, quando ia dormir, depois de um dia estressante, depressivo ou enfurecedor, eu colocava umas músicas de anime e imaginava aberturas e AMVs de AeK até cair no sono.

Então sim, eu não desisti da história. Tenho ideias muito legais que eu quero escrever ainda no universo de Pokémon.

Inclusive, quero agradecer a Aliança como um todo, que mesmo com as piadas de "KILL, VAI ESCREVER", "CADÊ AEK" ou "BAN NO KILL" sempre deixou claro que respeitam o tempo de cada autor, e que esse é o modo deles de falar "SUA HISTÓRIA É MUITO INTERESSANTE, EU QUERO LER MAIS!".

Então apesar de as vezes eu ter pensado que eu estava atrapalhando eles em alguma coisa por demorar tanto de escrever, eu nem tinha tempo de expressar isso, porque em 2 segundos alguem vinha falar que entendia o tempo que estava tomando, e que não era pra eu me pressionar a escrever na pressa. E que apesar do meu sumiço, eu sabia que depois de passar 3 horas tentando entender um artigo e ficar com vontade de bater a cabeça na mesa, eu podia entrar no servidor do discord e dar risada com vocês.

Dito isso, eu acho que errei com o Red. Quer dizer, eu ainda acho que ele devia passar por grandes derrotas e apanhar bastante pra crescer, mas na época em que escrevi os ultimos capitulos, eu mesmo estava tão mal dentro de minha cabeça que acabei descontanto tudo no Red. E apesar disso talvez fazer ele um personagem mais real, de um ponto de vista narrativo, eu não sabia mais o que fazer com ele. Eu mesmo não me sentia mais daquele jeito, e não queria escrever sobre aquilo daquela forma.

Passei muito tempo pensando se devia ou não rebootar a história. Por muito tempo pensei que não deveria. O Dento e o Canas foram exemplos que levei de que a história podia mudar a partir dali e ser incrivel. Mas eu continuava sem estar satisfeito e nem sabia como evoluir. Era um incomodo pessoal que eu tinha em do nada mudar a tristeza do Red sem explicação.

Há algum tempo decidi rebootar a história. Talvez "remaster" seja um termo melhor, pensando em termos de video-game... Elementos e eventos-chave ainda acontecerão como na versão antiga da história (então leitores antigos sabem o que esperar do Museu de Pewter), mas quero mudar um pouco a forma que escrevi, a personalidade e a reação dos personagens (incluindo Pokémon), e devo dizer que estou bem ansioso para ver como vai ficar "no papel" o que eu estou pensando, e o que vocês vão achar disso.

Enfim, já me alonguei demais explicando toda a jornada da nova versão de Aventuras em Kanto. Para os leitores antigos, espero que este prólogo seja familiar, mas traga novas sensações. Para os novos leitores, espero que gostem e digam aí o que acharam!

Smell ya later!

Prólogo

— O que está acontecendo?! — perguntava a voz desesperada que vinha das caixas de som espalhadas pela sala de comando.

O pânico não demorou a tomar conta do local com o soar do alarme sonoro de emergência e das luzes vermelhas que piscavam. Técnicos e operadores corriam em todas as direções. Alguns ainda tentavam resolver as centenas de problemas que surgiam do nada, mas a maioria já havia cedido ao caos iminente.

— Ele quebrou as amarras! Está tentando sair da jaula! — respondeu amedrontada uma das operadoras pelo microfone em sua mesa, ao mesmo tempo em que digitava dezenas de comandos, tentando em vão isolar algumas áreas daquela instalação.

— Não deixem quem escape! Estou... — as pessoas na sala aguardaram ainda alguns segundos, sem perceber que a comunicação foi interrompida abruptamente.

Em outra área da instalação, a origem do caos era clara. Em um cômodo que os funcionários chamavam de “Jaula” fiações estavam expostas no teto, equipamentos revirados, cacos de vidro espalhados e corpos humanos jaziam no chão. Os que ainda vivam estavam em seus últimos momentos, mas pensavam que estavam com sorte, porque sabiam que a criatura que estava em sua frente, apesar de extremamente poderosa, trajava uma armadura que restringia sua força física e mental.

A criatura odiava trajá-la. Há muito tempo fora condenada a usá-la, como uma camisa de força, não demorando em se tornar uma prisão. Não foi muito tempo depois que criou consciência de si e do mundo ao seu redor fora encarcerado nela. Os humanos moviam a criatura para vários locais, mas não havia liberdade. Sua prisão estava logo ali, sempre em contato com sua pele, roubando-lhe o tato.

Mas não precisava disso. Ninguém a tocaria. Não receberia afeto. A única função do tato era sentir o frio solitário do metal.

Porém mesmo sem tato ela sentia dor. Lembrava apenas de um brevíssimo tempo em sua vida antes da armadura, mas em sua primeira demonstração de poder, sufocaram-na com aquilo e agora usar seu poder trazia dores de cabeça que chegavam ao seu âmago. E como se não fosse suficiente estava sempre sendo testado por aqueles humanos.

Que tipo de mente doentia iria querer testá-lo, mas ao mesmo tempo limitaria suas capacidades?

“Quem sou eu?” foi o que ele pensou durante anos. “Por que eu estou aqui?” repetia para si mesmo.

Mas nesse dia, seu pensamento foi outro:

“Eu estou pronto.”

E por isso que estava ali naquele momento. Usando seus poderes para segurar uma dúzia de soldados sem que precisasse encostar um único dedo, apesar da dor que sentia. Estava disposto a usá-los para ter a chance de descobrir o que ele era de verdade, mesmo que fosse a última vez que o fizesse.

Ouviu passos ritmados e pesados se aproximando e parando atrás da porta mecânica do cômodo em que estava: A jaula, mais uma de suas prisões.

“Eles estão lá fora... Onde eu devo estar!”

Com o impulso desse pensamento, estendeu o braço em direção aos soldados caídos a sua frente e cerrou o punho. Um coro de gritos altos e breves estourou no ar enquanto os corpos se contorciam, moldados pelo seu punho, implodindo e virando apenas uma massa amorfa de carne, entranhas e sangue.

Voltou sua atenção para a saída do cômodo, e com um impulso de raiva em sua mente, fez a pesada porta de metal ser arremessada para fora como se ali dentro tivesse sido explodido uma poderosa bomba. A parede oposta fora manchada com densas gotas sangue fresco dos soldados esmagados.

Os outros soldados sacaram suas PokéBolas e convocaram uma equipe de Sandslash que prontamente atacaram com Pin Missile. A criatura quase acharia graça, se soubesse o que era esse sentimento, quando viu a expressão de choque dos humanos ao seu redor. Eles não podiam acreditar no que viam: todos os projeteis atirados pelos seus Pokémon estavam parados no ar, como se tivessem sido detidos por algum tipo de barreira invisível. Mas não havia barreira. Ele segurava cada projetil individualmente com sua mente em fúria, e quando decidiu que já podia soltá-los, fez com que voltassem para a direção que vieram.

Alguns segundos se passaram. Todos no prédio sentiram que suas cabeças iam explodir. Alguns desmaiaram e convulsionaram, outros com mais sorte apenas sangraram pelo nariz e pelas orelhas. Aquela era só uma amostra pequena dos poderes d’A Criatura: Ele apenas enviara uma mensagem psíquica propagada em onda pelo prédio.

“QUEM SOU EU?”

O prédio inteiro tremeu, mas pela primeira vez naquele dia, não era culpa dela.

***

A cidade tremera, mas quase ninguém se importou, afinal, eles moravam na Ilha Cinnabar, terremotos eram comuns aos moradores da pequena cidade que existia ali. Há alguns milênios, pessoas decidiram se assentar naquela terra. O solo era fértil e conseguiam plantar de tudo um pouco para sua subsistência. A distância do continente os deixara longe de qualquer tipo de guerra e intrigas políticas.

O único perigo de morar ali era o grande vulcão homônimo, mas há muito ele não entrara em erupção. Os mais antigos ainda contam histórias que ouviram de seus avós, que ouviram dos avós deles e assim por diante; de como o vulcão só atacava se fosse enfurecido, mas que seu espírito era honesto e justo e por isso os deixara viver em sua terra, contato que fossem boas pessoas.

Duas décadas atrás, um laboratório foi construído na pequena vila. Cientistas se interessaram muito pela área e começaram a vim de vários lugares de Kanto para estudar. Aquilo impulsionou a cidade fazendo-a crescer, mas ainda era uma das menores de todo o continente, já que não recebiam muitos forasteiros que não fossem estudiosos ou turistas, ambos só ficavam temporariamente na ilha até cumprir seus objetivos e voltarem para suas casas no continente.

Os locais gostavam de rir dos forasteiros que se desesperavam com os tremores constantes. Aquilo era parte do cotidiano por ali e todos se acostumavam com isso antes mesmo de aprender a andar.

Por isso naquele dia, ninguém se importou quando a ilha tremeu.

Pelo menos da primeira vez.

Logo os tremores ficaram mais frequentes e mais fortes. Aos poucos as pessoas começaram a fazer comentários.

“Nossa, hoje tá tremendo, né?”, perguntavam entre si de maneira despretensiosa.

Mas logo esses comentários insignificantes deram lugar à preocupação genuína. Uma sirene rompeu o som do burburinho nas ruas, avisando que todos deveriam buscar um lugar seguro para se abrigar. Alguns gritos desesperados puderam ser ouvidos, apesar de poucos. As erupções eram raras, mas todos os nativos dali faziam treinamento desde pequenos na escola para esse tipo de situação.

O Grande Vulcão, no entanto, não tinha tempo para se preocupar com protocolos. Antes de qualquer pessoa ter chance de começar a buscar um local seguro, ele fez tremer todo seu corpo e rugiu com a força de um trovão que vinha debaixo da terra, como quem liberava uma imensa raiva. Muitas pessoas cederam ao desespero e gritaram junto.

Todos ficaram atônitos ao verem o que acontecia no topo da montanha: uma nuvem de gás já cobria o céu próximo e pontos cintilantes saltavam e pareciam parte de um grande show.

E antes que pudessem esperar uma enorme coluna de terra e detritos se ergueu, rasgando o chão diante dos olhos de todos. Seu brilho era lindo, mas o sentimento que transmitia era de terror. A cor da lava era quase hipnótica em beleza e pavor. Junto dela desceu pela encosta a nuvem piroclástica, uma visão única de uma fumaça quase sólida formada de gás, cinzas e pedras que prendia a atenção de quem olhava, mas trazia consigo o toque da morte. Se aquilo era realmente parte de um show, tinha saído de uma mente insana.

Todos observaram em choque o topo da montanha. Até hoje ninguém sabe explicar como a lava e a nuvem de cinzas não se estenderam na encosta em direção à cidade, mas percorreu quilômetros nas outras direções. Os mais velhos dizem que o Grande Vulcão devia estar com raiva de algum alpinista sem noção que desrespeitara o local. Mesmo assim, não dava para explicar a visão que todos tiveram de uma criatura saindo da nuvem de fumaça, ilesa, voando em alta velocidade para o norte, cruzando o céu alaranjado do crepúsculo.

***

Rumando em direção a céu, ele se mantinha em linha reta enquanto cruzava a espessa e opaca nuvem de gás. Em meio à luta, calor, destroços e fumaça, sua armadura ruía pouco a pouco, se partindo em pedaços que ficavam para trás e caiam em direção ao solo. Pela primeira vez a sensação gélida do metal foi substituída por um imenso calor que fazia arder sua pele, mas o deixava feliz.

Ao deixar a nuvem de fumaça para trás, a criatura parou por um segundo e observou a paisagem.

A porção do prédio que ficava acima do solo estava em destroços, e provavelmente o que estava no subsolo estaria inacessível, tomado pela gelada água do mar.

A lava sendo expelida do topo da montanha era linda e perigosa, assim como sua própria natureza. Ela gostou disso. Era poético.

A cidade próxima com humanos correndo em desespero, como formigas assistindo a um pé vindo para esmagá-las. De certa forma, ele se sentiu vingado.

Antes de continuar seu trajeto sem rumo com o único objetivo de deixar essa ilha e seu passado para trás, ele teve um último pensamento.

“Eu sou o Pokémon mais forte do mundo.

Mais forte até do que o Mew.”


Extras


Bem-vindo a página de conteúdos extras da nossa Fanfic! Aqui você pode se deliciar com todos os os posts que não se encaixam em nenhuma outra categoria, mas mesmo assim, o senhorito Killer quis trazer para vocês, tanto publicações únicas, quanto conjuntos de publicações que virão no futuro.

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AeK OPENING 1

 


Depois de 2 anos escrevendo a fanfic e imaginando como seria uma abertura estilo anime para ela, eu finalmente decidi tirar a bunda do sofá e sentar no computador para fazer algo minimamente aceitavel. Espero que curtam!


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