Posted by : JanjoVS 17 de fev. de 2026


Pallet era uma cidade pacata no Oeste; daquelas típicas onde não se tinha muito para fazer. Havia algumas casas espalhadas pela cidade, normalmente acompanhada de uma pequena horta, nas quais os moradores plantavam e colhiam para subsistência e o que sobrava, era trocado com os vizinhos por vegetais diferentes ou vendido na feira que ocorria semanalmente em Viridian. Os mais abastados tinham terrenos maiores e produziam em maior nível, as vezes até criando alguns Pokémon, mas nada grande o suficiente para ser chamado de “Fazenda”, todos esses tinham orgulho de ter uma boa “roça”. Os adultos passavam os dias trabalhando, o que se resumia em cuidar das plantações ou, para aqueles que almejavam uma vida menos interiorana, ir à Viridian trabalhar em algum comércio.

Os adolescentes eram obrigados a seguir diariamente o caminho pela Rota 1 até Viridian, já que a escola em Pallet só dava aulas até o sexto ano. Antigamente, quando mal havia energia elétrica para abastecer a cidade, a escola local servia mais como uma creche, para os pais deixarem seus filhos sob alguma supervisão enquanto trabalhavam, e assim que as crianças eram alfabetizadas, seus pais decidiam entre matriculá-las em uma escola em Viridian ou fazê-los ajudar na roça ou nos trabalhos domésticos. A maioria dos adolescentes atuais estavam felizes pela época em que nasceram, afinal não precisavam trabalhar — apesar de ainda terem que ajudar com tarefas domésticas — e tinham acesso ao ensino básico completo, até mesmo aqueles que não gostavam muito de estudar.

Há alguns anos um renomado pesquisador, Professor Samuel Carvalho, se mudou para a cidade e — apesar da desconfiança inicial da maioria dos moradores que o consideraram um “arrogante da cidade grande” — contratou um serviço de micro-ônibus, que pagara do próprio bolso, para levar os estudantes até a escola em Viridian, o que diminuiu o tempo do trajeto de 2 horas para quinze minutos. Alguns dos mais velhos ainda diziam que andar todo o caminho criava caráter, mas a maioria da população o respeitava e era grata pela ação, principalmente os estudantes que agora tinham um pouquinho mais de tempo livre.

Mas apesar da distância da cidade e da falta de atividades de lazer, as crianças nunca reclamavam de Pallet. Claro que elas já tinham ouvido falar de shopping centers, onde podiam tomar sorvete e jogar videogames em fliperamas, e tinham vontade de conhecer — e algumas até mesmo tinham vontade de ir além de Viridian para conhecer as delícias e maravilhas das maiores metrópoles de Kanto — mas a energia e imaginação que possuíam fazia com que pudessem brincar de qualquer coisa em qualquer lugar. Grande parte das crianças mais velhas já tinham que ajudar com algumas tarefas em casa, mas era costume que depois que terminassem todas os afazeres, incluindo também o dever de casa passado pelos professores, se reuniam na praça central da cidade para brincar.

Era final de tarde num sábado, por tanto, sem aulas. Crianças e adolescentes estavam no “Largo”, a área da cidade em que a maior parte da socialização entre moradores acontecia. Uma estátua de dois metros de altura feita em pedra sabão esculpida na forma de três pássaros marcava o centro da praça e era orbitada por vários bancos de pedra branca e pequenos arbustos bem cuidados. Um grupo de jovens estavam em roda, cercando outras duas crianças que se encaravam seriamente, como se estivessem numa briga.

— E aí eu tenho um Oddish e ele vai usar Razor Leaf! — exclamou uma garota por volta dos 9 anos de idade com um pulo para trás, esticando os braços para frente e abrindo as mãos com força. Falava como se realmente houvesse um Pokémon a sua frente, e ela estivesse lhe dando ordens.

— E eu tenho um Poliwag que usa Bubble! — gritou a outra criança, um garoto da mesma faixa etária, fazendo gestos intensos, também imaginando um monstrinho ali que pudesse controlar e agora iam começar uma batalha emocionante. — Então eu ganho!

— Nada disso! Eu ganhei porque meu Oddish vai ser mais forte! — bradou a garota, nervosa com seu amigo que claramente não entendia que em batalhas hipotéticas de Pokémon imaginários ela seria a melhor.

— Nem pensar! — respondeu o menino. — Meu Polwag é claramente mais forte que seu Oddish!

— Claro que não, bobo! Grama é mais forte que água!

— Mentirosa! Como que isso é verdade se a gente rega a planta com água e a planta cresce e fica mais forte? Eu ganhei!

Os dois começaram uma discussão intensa que logo ficara inaudível com os incentivos jocosos da plateia ao redor ficando cada vez mais altos.

— Na verdade, Razor Leaf é um movimento do tipo Grama, que é super efetivo contra um Pokémon do tipo água como Poliwag — interrompeu um garoto mais velho, já na adolescência com seus 14 anos de idade, que estava com as costas apoiadas na estátua central fazendo pose de rebelde com os braços cruzados. Todos se calaram para ouvir o que ele tinha a dizer. — Então Oddish seria o vencedor desse duelo.

As duas crianças olharam para ele com brilho nos olhos. A roda de jovens se abriu para deixá-lo em foco. Apesar de ser apenas um adolescente, aquele ali era muito conhecido na cidade. Gary era seu nome, mas seu sobrenome, Carvalho, era o que fazia com que fosse conhecido e respeitado, já que trazia consigo todo o peso da fama de seu avô, o Samuel Carvalho.

Ao ouvir a análise feita por Gary, o menino mais novo ficou cabisbaixo, visivelmente triste.

— Poxa... Meu Poliwag não ganhou...

— Valeu, Gary! Você é demais mesmo, sabe de tudo! — agradeceu a garotinha pulando de felicidade e verdadeira admiração.

— É sempre um prazer ajudar com meu conhecimento — comentou com certa arrogância. — Eu sei de tudo porque meu avô me ensinou tudo o que ele sabe, e ele é simplesmente o melhor cientista Pokémon do mundo! — terminou aumentando o volume de sua voz para chamar a atenção das pessoas ao redor.

— Uau! — respondeu o grupo de jovens em uníssono.

Gary então ajeitou o corpo, se preparando para iniciar um discurso. Ele se importava em como se parecia para as outras pessoas, não atoa tinha um estilo que parecia desleixado, mas cuidadosamente escolhido. Se ele não fosse neto de seu avô, seria o tipo de adolescente que os pais iriam querer longe de seus filhos. Naquele dia vestia uma camisa larga e folgada em um tom forte de azul, combinada a uma calça preta e um par de botas marrom. Para completar o visual, um colar com um pingente circular dourado e o cabelo castanho meticulosamente espetado com gel.

— E por causa disso amanhã meu avô vai me dar um Pokémon muito raro para que eu comece minha jornada. Será o primeiro passo para que eu seja conhecido no mundo inteiro como o maior treinador de todos os tempos!

Logo, o falatório voltou a tomar conta do grupinho. Entre aplausos e sussurros, todos comentavam sobre como aquele momento era incrível e maravilhoso.

— Quer dizer então que você vai entrar em um shopping center de verdade? Isso é maneiro! — exclamou um dos garotos mais velhos.

— Quer dizer que... Você não vai mais frequentar a escola? — perguntou uma adolescente começando a ruborizar, temendo que nunca mais veria aquele por quem nutria sentimentos especiais.

— Eu não preciso mais da escola. Lembra daquela prova de Conhecimentos Gerais que eu fiz? Mostrou que já estou apto a ser um treinador e viajar por toda a região.

— Ah, não! — exclamou ela com os olhos marejados.

— Meus pêsames, mas esse é o destino que me aguarda.

A essa altura, uma multidão de quase trinta crianças e adolescentes estavam amontoadas em frente a Gary para ouvir o que ele tinha a falar, encantadas. Elas faziam as mais variadas perguntas e o garoto as respondia, fazendo com que sua plateia gritasse eufórica.

— O que você vai fazer na sua jornada? — perguntou um garoto.

— Eu vou explorar toda a região de Kanto e conseguir todas as oito insígnias.

— E qual vai ser esse Pokémon raro que seu vô vai te dar? — perguntou outra moça.

— Vocês verão. Amanhã! O que eu posso dizer é que eu já tenho vários tipos de estratégias montadas e já sei o que me espera além da Rota 1. O orgulho da Cidade de Pallet atenderá pelo nome de Gary Carvalho!

Mais aplausos e ovações. Quanto mais o bajulavam, mais seu ego inflava.

— Se você já sabe de tudo, qual a graça de sair em jornada? — provocou uma voz próxima.

Um garoto da mesma idade de Gary permanecia sentado em um banco próximo. Trajava uma camiseta preta e calça jeans azul que faziam com que não se destacasse muito entre as pessoas ali, exceto talvez de esconder seu cabelo preto com um boné vermelho e branco que combinava com seus tênis brancos com listras vermelhas.

Fingiu estar lendo um livro só para ouvir toda a palestra que Gary montara para inflar o próprio ego. Ele se irritava com aquilo. Tinha sido da mesma turma que Gary na escola desde a creche e nutria uma raiva tão antiga não lembrava quando havia começado.

Ele sentia que era a única pessoa em toda Pallet que percebia a verdade sobre Gary não ser o que parecia. Sabia que todas as ações do outro eram apenas por questões ególatras, não se importava com os outros, contato que o achassem legal, maneiro ou incrível. Além do fato que o próprio Gary nunca tinha feito nada e se apoiava apenas no nome e fama de seu avô, esse sim alguém que deveria ser admirado.

Gary percebeu quem tinha falado e não conseguiu segurar uma expressão rápida de desprezo. Desceu do banco em que tinha subido para usar de palanque perante seu jovem público e se dirigiu ao garoto que o desafiava.

— Ora, ora, se não é o Red? Claro que é... — comentou revirando os olhos. — Respondendo a sua pergunta: A graça é que só se vive uma vez, oras. Então que seja fazendo algo grandioso!

— Mas você já não sabe tudo e tem suas estratégias perfeitas? Se as pessoas já sabem de tudo, não tem por que gastar energia com isso — respondeu abaixando o livro e encarando o outro. — E se ainda tiver alguma dúvida pode correr pro vovô, né?

— Você acha que é cool fingir desinteresse? — perguntou Gary que não deixaria passar uma chance de provocar seu maior inimigo. — Saiba que não é qualquer um que ganha uma Licença de Treinador ou o Pokémon inicial que eu vou ganhar!

— Então vai lá. Boa sorte na sua aventura juntando os oito broches e ganhando dos Altos Cinco — retrucou Red, errando os nomes de propósito para demonstrar desinteresse e irritar Gary.

— São insígnias, não broches! E se chama Elite Quatro!!! Não acredito que você seja tão burro! — bradou Gary, completamente irritado enquanto Red sustentava um sorriso de vitória. Ver Gary sair do personagem na frente dos fãs foi o melhor momento do seu dia.

Então fechou seu livro, levantou, e deu de costas, começando a andar de volta para casa, ouvindo ofensas e xingamentos de seu rival. Mas nada apagava aquele sorriso de seu semblante.

***

Red tinha sentimentos mistos sobre viver em Pallet. Era uma cidade pacata, e ele gostava do fato que não tinha muita agitação por ali. Tinha uma vida calma e tranquila, mas ao mesmo tempo queria ter a chance de conhecer mais pessoas. Todos que ele conhecia ali idolatravam Gary Carvalho — mesmo que fosse apenas para ser incluído na rodinha dos populares que o cercavam — então não tinha com quem conversar sobre o fato de Gary ser um babaca.

Tirando o fato que todos os adolescentes de Pallet passavam a maior parte do tempo falando sobre sair de Pallet e morar em uma “cidade de verdade”. Red não entendia isso muito bem. Ele já sabia como era viver numa cidade agitada pelos relatos em seus livros, tanto biografias quanto ficções.

Acabou que durante maior parte de sua segunda infância e toda sua adolescência, seus amigos eram os livros. E ele gostava de ler tudo. Errava algumas coisas de proposito para irritar Gary as vezes, mas a verdade era que também era esperto.

Desde que começou a frequentar a escola em Viridian, Red estudava apenas o suficiente para conseguir uma nota média e se aprovado. Usava o resto de seu tempo pegando livros emprestados na biblioteca e os lendo em seu quarto, ou no telhado de sua casa, sob as estrelas.

Naquele momento estava lendo pela segunda vez “Samuel Carvalho: A humildade de um gênio”, a biografia não-oficial. O pesquisador já morava em Pallet desde antes de Red nascer, e ouvir como as outras pessoas falavam daquele senhor que parecia ser uma pessoa simples e que até morava na casa vizinha, fez que Red desenvolvesse uma grande admiração. Apesar de não admitir, ele havia se tornado um grande fã.

Entretanto, nunca teve coragem de conversar muito com o professor. As poucas vezes em que teve a oportunidade de falar com ele, o garoto não se sentiu seguro em manter uma conversa de alto nível com alguém que sabia de tudo o que havia para se saber e, por isso, as poucas palavras que conseguiu trocar se resumiam a: “Olá, boa tarde, que dia bonito, não é mesmo?”. Que vergonha.

Ele simplesmente travava de medo em frente ao professor. E se o homem puxasse algum assunto, perguntasse sobre algo que Red não soubesse responder e ele tivesse de ouvir algo do tipo “como você não sabe disso? Nunca leu tal livro sobre o assunto?”. Pior: E se risse de sua cara por alguma pergunta boba que fizesse?

A biografia dizia que Samuel Carvalho era uma pessoa humilde. Havia sido um renomado pesquisador na Universidade Celadon para Ensino e Desenvolvimento da Ciência, a UniCeladon . Mudara-se para Pallet com o objetivo de realizar seus estudos em um ambiente tranquilo, com o mínimo de interferência humana possível. E aquela cidadezinha era a ideal. Seus colegas de pesquisa da universidade acharam loucura trocar o borbulhante ambiente universitário e científico por um “vilarejo esquecido no mapa” e nenhum deles quis o acompanhar, apesar dele receber um estudante ou outro por algumas semanas. Em seu novo laboratório, realizou incríveis pesquisas que mudaram o rumo da ciência natural no mundo inteiro.

Red sabia disso. As vezes pensava que era besteira ter aquele medo. Mas seu eu irracional falava mais alto sempre que encontrava o professor e ele simplesmente não conseguia manter uma conversa.

Talvez se ele fosse amigo de Gary perderia esse medo e teria chance de se aproximar do professor, mas ele não aguentava ver o colega usar o mérito do seu avô para benefício próprio. Apesar disso sabia que, infelizmente, Gary também era bastante esperto.

Finalmente chegou em casa após andar algumas quadras. Entrou pela porta e logo viu sua mãe colocando a janta na mesa: rodelas de inhame cozido com manteiga e alguns ovos fritos. Estava feliz em ver sua mãe. Seu rosto familiar com olhos amendoados e cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo, mas com algumas mechas cobrindo seu rosto enquanto arrumava os talheres sobre a mesa. Levou os braços às costas e desamarrou o aventou, revelando uma blusa roxa de mangas longas que ornava muito vem com a saia longa de cor lilás.

— Oi, filhote! Que cara é essa? — perguntou ela, Joana, preocupada com a expressão cansada do filho.

— Nada não... — respondeu cabisbaixo. — Só o Gary de novo...

— Você sabia que eu até acho ele um bom menino? Acho que você devia ter mais paciência com ele — incentivou com um sorriso, enquanto puxava uma cadeira para que o garoto se sentasse.

— A senhora diz isso porque não tava lá — retrucou com a cara emburrada enquanto se sentava na cadeira e começava a se servir. — “Eu sou o melhor!”, “Meu avô sabe tudo!”, ele é um pé no saco!

— Eu acho que vocês têm tudo pra se dar bem um dia, sabia? — comentou sorrindo, o que gerou uma feição de nojo no rosto do filho e a fez cair na risada.

Eles conversaram um pouco mais sobre casualidades durante o jantar, mas Red comera apressadamente e subira para seu quarto.

Ele ignorou a mesa bagunçada no canto, passou direto pela televisão de 14 polegadas conectada ao seu Super Nintendo empoeirado e parou em pé ao lado de sua cama, onde estava o livro que estava lendo nos últimos dias. Encarou o livro com um suspiro e o pegou, junto também de uma lanterna que estava sobre a mesa de cabeceira e a colocou no bolso. Dirigiu-se até a janela que estava aberta e subiu no parapeito com cuidado, ergueu a mão livre para fora e tateou o telhado até sentir a textura de corda que havia deixado ali presa em uma das vigas. Com um puxão, a corda caiu em direção ao solo e esticou-se formando uma escada em sua frente, permitindo que subisse até o telhado.

Com muita calma, calculou onde daria os próximos passos entre as telhas para não as quebrar, e avançou um pouco até achar um bom lugar para se deitar. Ligou a lanterna, abriu o livro, e ali ficou por algumas horas.

...

Já era tarde da noite e o livro agora estava aberto sobre seu peito e já tinha desligado a lanterna. Agora observava as estrelas pensando como que tinham conseguido mapeá-las há tanto tempo. Conhecia algumas como as de Casal de Pikachu, Arcanine, Gardevoir, Chandelure e Skorupi, as mais famosas. Olhava para as outras estrelas, mas não conseguia ver nenhuma forma de constelação e começou a inventar algumas.

Era isso que ele faria pelo resto da vida? Decorar informações e inventar as respostas para preencher as lacunas que não sabia?

Era por isso que não podia encarar o Professor Carvalho. Ele não conseguia nem aprender direito sobre constelações, quem dirá sobre outros assuntos mais complexos. O Professor sim tinha contribuído de alguma forma para o mundo, não era só uma pessoa que cuspia informações gravadas na memória, diferente de Gary. E de si mesmo.

“O que vou fazer do meu futuro?” era uma questão que volta e meia surgia em sua cabeça. Ouvia dos outros que era inteligente, mas não se achava. Saber das coisas é ser inteligente? Para ele importava mais o que fazer algo útil com as coisas que se sabe, e isso ele não tinha nem ideia de por onde começar.

Uma dica do que fazer. É tudo que precisava. Como ele poderia se sentir satisfeito consigo mesmo e com seu lugar no mundo? Queria que o universo lhe mostrasse o caminho.

E então algo cruzou os céus. Parecia uma estrela cadente, mas não brilhava como uma. E, podia até ser impressão dele, mas estava mais perto do que uma estrela normalmente estaria.

Red ergueu as sobrancelhas e se sentou intrigado. Não sabia o que era aquilo, mas não conseguiu desgrudar os olhos.

Aquilo com certeza não era algo que estivesse descrito em algum livro que já tenha lido. Será que aquilo era o sinal que pedira? Será que era algo desconhecido que valia a pena ser explorado, ou só mais uma coisa que ele não estudara o suficiente para saber que existia?

Enquanto permanecia paralisado encarando o céu perdido em pensamentos em um misto de emoções, teve a certeza de que “aquilo” parou por um segundo e o encarou de volta.

Um grito de surpresa ficou preso em sua garganta. O pavor foi tamanho que suprimiu qualquer som que pudesse produzir. Seus músculos se contraíram fazendo-o desequilibrar. Sua consciência voltou ao seu próprio corpo e tentou se segurar em alguma coisa, sem sucesso. Acabou caindo pela lateral da casa e finalmente conseguiu expulsar o ar de seus pulmões com um grito que logo foi abafado pelos arbustos que amorteceram sua queda.

Certificou-se que não tinha nenhum ferimento muito sério além dos arranhões que ardiam e se levantou. Aquela parecia ter sido uma boa troca: deixar de quebrar alguns ossos para quebrar alguns gravetos, e esperava que sua mãe tivesse a mesma ideia. Ele não queria receber sermões por estragar a harmonia visual do jardim.

Na varanda da casa vizinha surgiu um rangido do abrir de portas. Red sabia que de jeito nenhum aquilo terminaria bem para ele, já que as únicas pessoas que moravam naquela casa eram o Professor Carvalho, Gary, e Daisy, sua irmã mais velha. E Red não queria parecer idiota para seu ídolo, nem para seu rival, nem para seu primeiro interesse romântico. Portanto tratou logo de correr para dentro de casa antes que qualquer pessoa o visse naquela situação.

— Red?! — gritou sua mãe surpresa ao vê-lo entrar novamente pela porta da frente, coberto de arranhões, galhos e folhas. — Você tá bem? Se machucou?

— Não, não. Relaxa, mãe. Tá tudo bem, eu só escorreguei...

— Você tava no telhado de novo, né?! Eu já te disse várias vezes que não é pra ficar subindo lá! Você quer mesmo que eu tranque a janela do seu quarto e que não entre nem mais um misero raio de sol no seu quarto?! — Red abriu a boca para tentar responder, mas não teve nem ao menos a chance de pronunciar uma silaba e já foi interrompido novamente — Você já tá velho o suficiente pra saber que vai se machucar! Ai meu Arceus, para de ficar aí me olhando com essa cara de bobo! Se não tá machucado vai logo subir e tomar um banho, garoto! E espero que vá pra cama logo depois e só saia dela amanhã de manhã!

— Desculpa... — foi tudo o que conseguiu falar enquanto subia as escadas em direção ao seu quarto.

Seguindo as ordens de sua mãe, pegou um pijama velho e foi se banhar antes de deitar-se. Apesar de realmente querer limpar a sujeira do telhado e do jardim que agora estava em seu corpo, ele não queria ficar sozinho com os próprios pensamentos durante aqueles minutos do banho. Ele tinha sentimentos conflitantes. Queria saber mais sobre aquilo que tinha visto, mas achava que apenas o Professor Carvalho saberia responder e não poderia perguntar para ele! Não podia se mostrar ignorante na frente dele! O que fazer então?

Ele terminou o banho e foi se deitar sem nem se dar conta do que fazia. Estava agindo de forma automática com a mente tomada por curiosidade, insegurança e dúvida. Rolava na cama sem conseguir dormir, ruminando esses pensamentos.

O silêncio da madrugada só era quebrado pelo som do vento passando pelas frestas da janela. Uma ideia surgiu em sua mente. Começou como uma simples fagulha, mas todo o seu ser se agarrou naquele simples pensamento e o alimentou, fazendo com que crescesse e tomasse forma: Ele sairia em jornada também. Seguiria rumo ao norte, além da Rota 1, e iria procurar o que quer que fosse aquilo que passou voando pelo céu. Iria caminhar até encontrá-lo e então voltaria, agora com a certeza do saber. E então finalmente poderia conversar sobre com o Professor Carvalho, que finalmente teria algo de bom para pensar sobre ele!

Sim! Era o plano perfeito!

Imediatamente levantou da cama e começou a organizar sua mochila, fazendo o mínimo de barulho possível para que sua mãe não acordasse. Ele teria que sair um pouco antes do nascer do sol, para que ninguém o visse andando para além dos limites da cidade.

Tênis e jeans, camisa e roupa de baixo limpas. Também arrumara espaço para colocar seu lanche favorito e uma garrafa térmica com um pouco de chocolate quente, um par de luvas de borracha e uma corda. Além disso, lanterna, caderno e caneta. Não faltava mais nada.

***

Aquela noite foi estranha para os moradores de Viridian, mas ninguém se lembraria para contar. Todos dormiram profundamente àquela noite. Desde jovens festeiros que ficavam na rua até o sol raiar, conversando com amigos e bebendo vinho de qualidade duvidosa em garrafas PET, até adultos estressados, tão cheios de trabalho que estavam transbordado em adrenalina e cafeína. Não houve um único morador da cidade que não tivesse caído em um estranho sono profundo.

Todos tiveram o mesmo sonho. Estavam em um cômodo de uma casa feita de madeira. As únicas fontes de luz vinham do lado de fora, por janelas fechadas com persianas. A luz era estranha, quase psicodélica. Ninguém parecia achar estranho, mas ninguém se lembraria para contar.

A cada tique do relógio, algum móvel ou objeto simplesmente desaparecia daquele local esquisito: mesa, sofá, televisão, porta-retratos; todos iam sumindo um por um. No entanto, ninguém tinha vontade de tentar salvá-los. Olhar o relógio era tudo que queriam naquele momento.

Mas ninguém se lembraria para contar.

***

O céu arroxeado indicava que o sol estava para nascer. Red se certificou de deixar um bilhete em cima da mesa da cozinha antes de sair pela porta da frente, dando o primeiro passo para fora de casa faltando 20 minutos para o nascer do sol. Não sabia quando voltaria, estava ansioso, pelo bem e pelo mal. Apesar das dúvidas, esperava voltar em dois dias ou três, afinal, aquilo não poderia ter ido muito mais longe que a floresta de Viridian, poderia? Alguns Pidgey e Rattata não conseguiriam machucá-lo, conseguiriam?

Acompanhado por esses pensamentos, ele pisou firme na calçada e começou a caminhada até a saída da cidade pela Rota 1. Ele nunca havia ido sozinho até Viridian. Estava sempre acompanhado ou de sua mãe ou dos colegas de escola no ônibus que fazia aquele caminho diariamente. Aquela também era uma jornada para se provar.

O primeiro raio de sol tocou seus olhos assim que avistou a placa de “Volte-logo! Pallet sentirá sua falta!”. Seu coração começou a bater mais rápido. A a adrelnalina percorreu seus nervos e ele aumentou a velocidade de seus passos. Quando percebeu, estava correndo.

E tudo aconteceu muito rápido.

Ao dar o primeiro passo para fora da cidade, suas pernas balançaram a grama alta.  Um som foi ouvido. Era um Pokémon? Parecia uma interjeição de surpresa. Algo pulou em sua direção e ele tentou recuar, mas a inércia pregou-lhe uma peça. Confundiu os pés ao tentar andar para trás e tropeçou.

Foi então que seu cérebro se deu conta da situação:

Uma criatura de pelagem amarela e bochechas vermelhas que faiscavam estava em posição de ataque bem à sua frente. Apoiado nas quatro patas, o Pokémon olhava para ele expressando medo e agressividade.

Algo estava errado. Aquela rota devia ter apenas Pidgey e Rattata, no máximo algumas hordas de Oddish e Bellsprout que se escondiam por entre as árvores. Não havia nenhum Pokémon amarelo de bochechas rubras por ali, Red tinha certeza. Lera muitos livros que mostravam o habitat dos Pokémon que moravam em Kanto. E um Pokémon daquele com certeza não se encontrava ali.

Manchas marrons em suas costas e na base de sua cauda que era em formato de raio. As orelhas com pontas pretas, faíscas elétricas saindo das bochechas...

Mas é claro! Ele sabia que Pokémon era aquele!

E aquilo não era bom.

Percebeu o pelo do Pokémon se eriçar e faíscas começarem a saltar de suas bochechas rubras em uma frequência cada vez maior.

Ele seria atingido por um ataque elétrico e não tinha como se defender.



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  1. Olá Kill! Parece que Arceus foi generoso e o primeiro capítulo de Aventuras em Kanto finalmente aconteceu! Como eu vivo em um lugar pequeno, o que eu gostei mais neste capítulo foi a sua ambientação, que ao lado do seu estilo de escrita, deixou tudo muito saboroso de se ler! Fluiu muito bem! Todo o cuidado a descrever os pensamentos dos habitantes de Pallet, a ruralidade do passado e o que cada um desconhece sobre o que existe fora daquele pequeno vilarejo.

    Depois tivemos a rinha clássica entre Red e Gary, e as inseguranças de Red face a seu maior ídolo, e o chamado do desconhecido leva-o ao meio do mato onde um rato amarelo o espera kkk Claro que essa pequena impulsividade iria dar errado! kkk
    Gostei muito do jeito solitário do Red, e o facto dele querer se isolar de tudo em seus livros subindo no telhado. Livros e histórias são realmente uma porta para o mundo exterior.

    Espero ter mais surpresas como esta! E então, JÁ ESCREVES-TE O SEGUNDO CAPÍTULO?

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    1. AAAA, fico muiti feliz que tenha gostado! Eu me inspirei na cidade em que meus pais nasceram para descrever Pallet, fico feliz que eu tenha acertado!
      Sinto que meu ponto forte é justamente fazer essa ambientação junto com os pensamentos, tanto individuais quanto coletivos, agora é praticar os outros pontos e terminar o capítulo 2 logo para você ver o que resultará esse encontro com o rato amarelo!

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  2. Olha só onde estamos! Que momento, meus amigos! O começo acaba de começar :v

    Eu gostei de como as personalidades do Gary e do Red foram trabalhadas aqui. O Gary não tem muito segredo, é aquele rival babacão que fica se escorando no nome do avô pra farmar popularidade. Mas acredito que futuramente isso vai começar a ser um incômodo até pra ele, quando ele perceber que as pessoas o enxergam apenas como o neto do Professor Carvalho. Em algum momento ele vai ter que tentar se desprender disso e fazer seu próprio nome.

    Da parte do Red, é uma personalidade diferente do que a gente costuma ver por aí. Ele até parece bem mais com o Red dos jogos, mais na dele e tal, mas é importante saber que ele também tem seus defeitos. Meu amigo, é o Professor Carvalho, não é a crush da escola não. Só para de ser lesado e vai falar com ele! Mas não, ele tinha que fazer tudo por conta própria e agora está prestes a virar torresmo pra um Pikachu alucinado kkkkkkkkkkkkkk

    Vamos ver se ele sobrevive pra ter uma nova chance de ir atrás de seja lá o que ele viu na noite anterior.

    Até a próxima! õ/

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  3. O ANIVERSÁRIO É DA AA, MAS QUEM GANHA PRESENTE É A GENTE!

    Vamo começar do começo: Nossa, gostosinha demais sua descrição de Pallet, realmente passou a energia que é uma cidade no fim do mundo MESMO, o famoso interior do interior. E querendo ou não, isso com certeza molda a personalidade de quem mora lá, né?

    Mas o mais fascinante pra mim foi ver a dinâmica do Red e do Gary. Porque, como o próprio Red admite, no fim das contas eles não são tão diferentes assim, né? Ambos garotos inteligentes, mas ainda é uma incógnita se eles vão conseguir colocar essa inteligência em prática... A diferença é que um tem uma confiança além da conta e o outro não kkkkkkkkkk Mas no fim, eles são dois lados da mesma moeda, né? Os dois querem se provar de uma maneira ou outra...

    Red muito gente como a gente, saindo numa jornada só pra ter assunto com alguém que ele admira kkkkkk Ou... Esse é o motivo na superfície, pelo menos... Será que ele tá tão satisfeito com essa vida tão tranquila mesmo? Será que ele sequer percebe isso em si mesmo? Mas agora o que importa é que depois dele ter caído do telhado, agora tem uma ratazana querendo dar choque nele, então antes de mais nada ele precisa sobreviver a isso kkkkkkkkk

    Antes de encerrar meu comentário, quero dizer que: Parabéns pelo Red, pq olha, fazer esse personagem tão icônico não ficar batido é uma tarefa complicadinha, e pra mim vc fez isso muito bem <3 AGORA EU QUERO MAIS, PFVR ;_; Vê se não some!!!

    Até a próxima, meu querido! <3

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  4. Olha, olha, parece que habemus Kanto, não é mesmo?
    Eu gosto do ar de primeiro capítulo, aquele cheirinho de coisa nova recém retirada da embalagem que exala ao longo do texto. Temos a introdução de Pallet como uma cidadezinha interiorana que subsiste da agricultura e que é codependente de Viridian e como a geração mais nova acaba se sentindo frustrada por viver no meio do nada e coisas triviais como um shopping acabam sendo um sonho distante e idílico e aí temos o Gary, que por ser neto de quem é, ele se encontra em um lugar "superior", alguém tem que dar uma coça nesse caipira premium uma hora, mas acho que não vai ser o Red, por que até ele cede às provocações do Gary, coitado.
    Gosto do Red, você o fez um personagem diferente, mas Red, meu filho, vai ler outra coisa, ninguém merece ler a autobiografia do Carvalho, deve ter umas cinquenta páginas falando sobre não andar de bicicleta em prédio fechado.
    Brincadeiras a parte, gostei do que você fez com o seu Red. Acho que por conta do imaginário popular, muitos esperam um shounen boy wannabe impulsivo com meio neurônio ou um cara edgy e ele não é nada disso. Ele é um menino ingênuo, mas ao mesmo tempo inteligente, mas que nunca foi colocado à prova e isso deixa claro. Ele ainda tem muito a se descobrir, mas que espero que ele possa sair desse casulo que ele mesmo se colocou. E cuidado com o Pikachu, Red, o Pika não morde, mas o Pika dá choque, então corre Red, corre.

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