Capítulo 1 - O que há para conhecer


Pallet era uma cidade pacata no Oeste; daquelas típicas onde não se tinha muito para fazer. Havia algumas casas espalhadas pela cidade, normalmente acompanhada de uma pequena horta, nas quais os moradores plantavam e colhiam para subsistência e o que sobrava, era trocado com os vizinhos por vegetais diferentes ou vendido na feira que ocorria semanalmente em Viridian. Os mais abastados tinham terrenos maiores e produziam em maior nível, as vezes até criando alguns Pokémon, mas nada grande o suficiente para ser chamado de “Fazenda”, todos esses tinham orgulho de ter uma boa “roça”. Os adultos passavam os dias trabalhando, o que se resumia em cuidar das plantações ou, para aqueles que almejavam uma vida menos interiorana, ir à Viridian trabalhar em algum comércio.

Os adolescentes eram obrigados a seguir diariamente o caminho pela Rota 1 até Viridian, já que a escola em Pallet só dava aulas até o sexto ano. Antigamente, quando mal havia energia elétrica para abastecer a cidade, a escola local servia mais como uma creche, para os pais deixarem seus filhos sob alguma supervisão enquanto trabalhavam, e assim que as crianças eram alfabetizadas, seus pais decidiam entre matriculá-las em uma escola em Viridian ou fazê-los ajudar na roça ou nos trabalhos domésticos. A maioria dos adolescentes atuais estavam felizes pela época em que nasceram, afinal não precisavam trabalhar — apesar de ainda terem que ajudar com tarefas domésticas — e tinham acesso ao ensino básico completo, até mesmo aqueles que não gostavam muito de estudar.

Há alguns anos um renomado pesquisador, Professor Samuel Carvalho, se mudou para a cidade e — apesar da desconfiança inicial da maioria dos moradores que o consideraram um “arrogante da cidade grande” — contratou um serviço de micro-ônibus, que pagara do próprio bolso, para levar os estudantes até a escola em Viridian, o que diminuiu o tempo do trajeto de 2 horas para quinze minutos. Alguns dos mais velhos ainda diziam que andar todo o caminho criava caráter, mas a maioria da população o respeitava e era grata pela ação, principalmente os estudantes que agora tinham um pouquinho mais de tempo livre.

Mas apesar da distância da cidade e da falta de atividades de lazer, as crianças nunca reclamavam de Pallet. Claro que elas já tinham ouvido falar de shopping centers, onde podiam tomar sorvete e jogar videogames em fliperamas, e tinham vontade de conhecer — e algumas até mesmo tinham vontade de ir além de Viridian para conhecer as delícias e maravilhas das maiores metrópoles de Kanto — mas a energia e imaginação que possuíam fazia com que pudessem brincar de qualquer coisa em qualquer lugar. Grande parte das crianças mais velhas já tinham que ajudar com algumas tarefas em casa, mas era costume que depois que terminassem todas os afazeres, incluindo também o dever de casa passado pelos professores, se reuniam na praça central da cidade para brincar.

Era final de tarde num sábado, por tanto, sem aulas. Crianças e adolescentes estavam no “Largo”, a área da cidade em que a maior parte da socialização entre moradores acontecia. Uma estátua de dois metros de altura feita em pedra sabão esculpida na forma de três pássaros marcava o centro da praça e era orbitada por vários bancos de pedra branca e pequenos arbustos bem cuidados. Um grupo de jovens estavam em roda, cercando outras duas crianças que se encaravam seriamente, como se estivessem numa briga.

— E aí eu tenho um Oddish e ele vai usar Razor Leaf! — exclamou uma garota por volta dos 9 anos de idade com um pulo para trás, esticando os braços para frente e abrindo as mãos com força. Falava como se realmente houvesse um Pokémon a sua frente, e ela estivesse lhe dando ordens.

— E eu tenho um Poliwag que usa Bubble! — gritou a outra criança, um garoto da mesma faixa etária, fazendo gestos intensos, também imaginando um monstrinho ali que pudesse controlar e agora iam começar uma batalha emocionante. — Então eu ganho!

— Nada disso! Eu ganhei porque meu Oddish vai ser mais forte! — bradou a garota, nervosa com seu amigo que claramente não entendia que em batalhas hipotéticas de Pokémon imaginários ela seria a melhor.

— Nem pensar! — respondeu o menino. — Meu Polwag é claramente mais forte que seu Oddish!

— Claro que não, bobo! Grama é mais forte que água!

— Mentirosa! Como que isso é verdade se a gente rega a planta com água e a planta cresce e fica mais forte? Eu ganhei!

Os dois começaram uma discussão intensa que logo ficara inaudível com os incentivos jocosos da plateia ao redor ficando cada vez mais altos.

— Na verdade, Razor Leaf é um movimento do tipo Grama, que é super efetivo contra um Pokémon do tipo água como Poliwag — interrompeu um garoto mais velho, já na adolescência com seus 14 anos de idade, que estava com as costas apoiadas na estátua central fazendo pose de rebelde com os braços cruzados. Todos se calaram para ouvir o que ele tinha a dizer. — Então Oddish seria o vencedor desse duelo.

As duas crianças olharam para ele com brilho nos olhos. A roda de jovens se abriu para deixá-lo em foco. Apesar de ser apenas um adolescente, aquele ali era muito conhecido na cidade. Gary era seu nome, mas seu sobrenome, Carvalho, era o que fazia com que fosse conhecido e respeitado, já que trazia consigo todo o peso da fama de seu avô, o Samuel Carvalho.

Ao ouvir a análise feita por Gary, o menino mais novo ficou cabisbaixo, visivelmente triste.

— Poxa... Meu Poliwag não ganhou...

— Valeu, Gary! Você é demais mesmo, sabe de tudo! — agradeceu a garotinha pulando de felicidade e verdadeira admiração.

— É sempre um prazer ajudar com meu conhecimento — comentou com certa arrogância. — Eu sei de tudo porque meu avô me ensinou tudo o que ele sabe, e ele é simplesmente o melhor cientista Pokémon do mundo! — terminou aumentando o volume de sua voz para chamar a atenção das pessoas ao redor.

— Uau! — respondeu o grupo de jovens em uníssono.

Gary então ajeitou o corpo, se preparando para iniciar um discurso. Ele se importava em como se parecia para as outras pessoas, não atoa tinha um estilo que parecia desleixado, mas cuidadosamente escolhido. Se ele não fosse neto de seu avô, seria o tipo de adolescente que os pais iriam querer longe de seus filhos. Naquele dia vestia uma camisa larga e folgada em um tom forte de azul, combinada a uma calça preta e um par de botas marrom. Para completar o visual, um colar com um pingente circular dourado e o cabelo castanho meticulosamente espetado com gel.

— E por causa disso amanhã meu avô vai me dar um Pokémon muito raro para que eu comece minha jornada. Será o primeiro passo para que eu seja conhecido no mundo inteiro como o maior treinador de todos os tempos!

Logo, o falatório voltou a tomar conta do grupinho. Entre aplausos e sussurros, todos comentavam sobre como aquele momento era incrível e maravilhoso.

— Quer dizer então que você vai entrar em um shopping center de verdade? Isso é maneiro! — exclamou um dos garotos mais velhos.

— Quer dizer que... Você não vai mais frequentar a escola? — perguntou uma adolescente começando a ruborizar, temendo que nunca mais veria aquele por quem nutria sentimentos especiais.

— Eu não preciso mais da escola. Lembra daquela prova de Conhecimentos Gerais que eu fiz? Mostrou que já estou apto a ser um treinador e viajar por toda a região.

— Ah, não! — exclamou ela com os olhos marejados.

— Meus pêsames, mas esse é o destino que me aguarda.

A essa altura, uma multidão de quase trinta crianças e adolescentes estavam amontoadas em frente a Gary para ouvir o que ele tinha a falar, encantadas. Elas faziam as mais variadas perguntas e o garoto as respondia, fazendo com que sua plateia gritasse eufórica.

— O que você vai fazer na sua jornada? — perguntou um garoto.

— Eu vou explorar toda a região de Kanto e conseguir todas as oito insígnias.

— E qual vai ser esse Pokémon raro que seu vô vai te dar? — perguntou outra moça.

— Vocês verão. Amanhã! O que eu posso dizer é que eu já tenho vários tipos de estratégias montadas e já sei o que me espera além da Rota 1. O orgulho da Cidade de Pallet atenderá pelo nome de Gary Carvalho!

Mais aplausos e ovações. Quanto mais o bajulavam, mais seu ego inflava.

— Se você já sabe de tudo, qual a graça de sair em jornada? — provocou uma voz próxima.

Um garoto da mesma idade de Gary permanecia sentado em um banco próximo. Trajava uma camiseta preta e calça jeans azul que faziam com que não se destacasse muito entre as pessoas ali, exceto talvez de esconder seu cabelo preto com um boné vermelho e branco que combinava com seus tênis brancos com listras vermelhas.

Fingiu estar lendo um livro só para ouvir toda a palestra que Gary montara para inflar o próprio ego. Ele se irritava com aquilo. Tinha sido da mesma turma que Gary na escola desde a creche e nutria uma raiva tão antiga não lembrava quando havia começado.

Ele sentia que era a única pessoa em toda Pallet que percebia a verdade sobre Gary não ser o que parecia. Sabia que todas as ações do outro eram apenas por questões ególatras, não se importava com os outros, contato que o achassem legal, maneiro ou incrível. Além do fato que o próprio Gary nunca tinha feito nada e se apoiava apenas no nome e fama de seu avô, esse sim alguém que deveria ser admirado.

Gary percebeu quem tinha falado e não conseguiu segurar uma expressão rápida de desprezo. Desceu do banco em que tinha subido para usar de palanque perante seu jovem público e se dirigiu ao garoto que o desafiava.

— Ora, ora, se não é o Red? Claro que é... — comentou revirando os olhos. — Respondendo a sua pergunta: A graça é que só se vive uma vez, oras. Então que seja fazendo algo grandioso!

— Mas você já não sabe tudo e tem suas estratégias perfeitas? Se as pessoas já sabem de tudo, não tem por que gastar energia com isso — respondeu abaixando o livro e encarando o outro. — E se ainda tiver alguma dúvida pode correr pro vovô, né?

— Você acha que é cool fingir desinteresse? — perguntou Gary que não deixaria passar uma chance de provocar seu maior inimigo. — Saiba que não é qualquer um que ganha uma Licença de Treinador ou o Pokémon inicial que eu vou ganhar!

— Então vai lá. Boa sorte na sua aventura juntando os oito broches e ganhando dos Altos Cinco — retrucou Red, errando os nomes de propósito para demonstrar desinteresse e irritar Gary.

— São insígnias, não broches! E se chama Elite Quatro!!! Não acredito que você seja tão burro! — bradou Gary, completamente irritado enquanto Red sustentava um sorriso de vitória. Ver Gary sair do personagem na frente dos fãs foi o melhor momento do seu dia.

Então fechou seu livro, levantou, e deu de costas, começando a andar de volta para casa, ouvindo ofensas e xingamentos de seu rival. Mas nada apagava aquele sorriso de seu semblante.

***

Red tinha sentimentos mistos sobre viver em Pallet. Era uma cidade pacata, e ele gostava do fato que não tinha muita agitação por ali. Tinha uma vida calma e tranquila, mas ao mesmo tempo queria ter a chance de conhecer mais pessoas. Todos que ele conhecia ali idolatravam Gary Carvalho — mesmo que fosse apenas para ser incluído na rodinha dos populares que o cercavam — então não tinha com quem conversar sobre o fato de Gary ser um babaca.

Tirando o fato que todos os adolescentes de Pallet passavam a maior parte do tempo falando sobre sair de Pallet e morar em uma “cidade de verdade”. Red não entendia isso muito bem. Ele já sabia como era viver numa cidade agitada pelos relatos em seus livros, tanto biografias quanto ficções.

Acabou que durante maior parte de sua segunda infância e toda sua adolescência, seus amigos eram os livros. E ele gostava de ler tudo. Errava algumas coisas de proposito para irritar Gary as vezes, mas a verdade era que também era esperto.

Desde que começou a frequentar a escola em Viridian, Red estudava apenas o suficiente para conseguir uma nota média e se aprovado. Usava o resto de seu tempo pegando livros emprestados na biblioteca e os lendo em seu quarto, ou no telhado de sua casa, sob as estrelas.

Naquele momento estava lendo pela segunda vez “Samuel Carvalho: A humildade de um gênio”, a biografia não-oficial. O pesquisador já morava em Pallet desde antes de Red nascer, e ouvir como as outras pessoas falavam daquele senhor que parecia ser uma pessoa simples e que até morava na casa vizinha, fez que Red desenvolvesse uma grande admiração. Apesar de não admitir, ele havia se tornado um grande fã.

Entretanto, nunca teve coragem de conversar muito com o professor. As poucas vezes em que teve a oportunidade de falar com ele, o garoto não se sentiu seguro em manter uma conversa de alto nível com alguém que sabia de tudo o que havia para se saber e, por isso, as poucas palavras que conseguiu trocar se resumiam a: “Olá, boa tarde, que dia bonito, não é mesmo?”. Que vergonha.

Ele simplesmente travava de medo em frente ao professor. E se o homem puxasse algum assunto, perguntasse sobre algo que Red não soubesse responder e ele tivesse de ouvir algo do tipo “como você não sabe disso? Nunca leu tal livro sobre o assunto?”. Pior: E se risse de sua cara por alguma pergunta boba que fizesse?

A biografia dizia que Samuel Carvalho era uma pessoa humilde. Havia sido um renomado pesquisador na Universidade Celadon para Ensino e Desenvolvimento da Ciência, a UniCeladon . Mudara-se para Pallet com o objetivo de realizar seus estudos em um ambiente tranquilo, com o mínimo de interferência humana possível. E aquela cidadezinha era a ideal. Seus colegas de pesquisa da universidade acharam loucura trocar o borbulhante ambiente universitário e científico por um “vilarejo esquecido no mapa” e nenhum deles quis o acompanhar, apesar dele receber um estudante ou outro por algumas semanas. Em seu novo laboratório, realizou incríveis pesquisas que mudaram o rumo da ciência natural no mundo inteiro.

Red sabia disso. As vezes pensava que era besteira ter aquele medo. Mas seu eu irracional falava mais alto sempre que encontrava o professor e ele simplesmente não conseguia manter uma conversa.

Talvez se ele fosse amigo de Gary perderia esse medo e teria chance de se aproximar do professor, mas ele não aguentava ver o colega usar o mérito do seu avô para benefício próprio. Apesar disso sabia que, infelizmente, Gary também era bastante esperto.

Finalmente chegou em casa após andar algumas quadras. Entrou pela porta e logo viu sua mãe colocando a janta na mesa: rodelas de inhame cozido com manteiga e alguns ovos fritos. Estava feliz em ver sua mãe. Seu rosto familiar com olhos amendoados e cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo, mas com algumas mechas cobrindo seu rosto enquanto arrumava os talheres sobre a mesa. Levou os braços às costas e desamarrou o aventou, revelando uma blusa roxa de mangas longas que ornava muito vem com a saia longa de cor lilás.

— Oi, filhote! Que cara é essa? — perguntou ela, Joana, preocupada com a expressão cansada do filho.

— Nada não... — respondeu cabisbaixo. — Só o Gary de novo...

— Você sabia que eu até acho ele um bom menino? Acho que você devia ter mais paciência com ele — incentivou com um sorriso, enquanto puxava uma cadeira para que o garoto se sentasse.

— A senhora diz isso porque não tava lá — retrucou com a cara emburrada enquanto se sentava na cadeira e começava a se servir. — “Eu sou o melhor!”, “Meu avô sabe tudo!”, ele é um pé no saco!

— Eu acho que vocês têm tudo pra se dar bem um dia, sabia? — comentou sorrindo, o que gerou uma feição de nojo no rosto do filho e a fez cair na risada.

Eles conversaram um pouco mais sobre casualidades durante o jantar, mas Red comera apressadamente e subira para seu quarto.

Ele ignorou a mesa bagunçada no canto, passou direto pela televisão de 14 polegadas conectada ao seu Super Nintendo empoeirado e parou em pé ao lado de sua cama, onde estava o livro que estava lendo nos últimos dias. Encarou o livro com um suspiro e o pegou, junto também de uma lanterna que estava sobre a mesa de cabeceira e a colocou no bolso. Dirigiu-se até a janela que estava aberta e subiu no parapeito com cuidado, ergueu a mão livre para fora e tateou o telhado até sentir a textura de corda que havia deixado ali presa em uma das vigas. Com um puxão, a corda caiu em direção ao solo e esticou-se formando uma escada em sua frente, permitindo que subisse até o telhado.

Com muita calma, calculou onde daria os próximos passos entre as telhas para não as quebrar, e avançou um pouco até achar um bom lugar para se deitar. Ligou a lanterna, abriu o livro, e ali ficou por algumas horas.

...

Já era tarde da noite e o livro agora estava aberto sobre seu peito e já tinha desligado a lanterna. Agora observava as estrelas pensando como que tinham conseguido mapeá-las há tanto tempo. Conhecia algumas como as de Casal de Pikachu, Arcanine, Gardevoir, Chandelure e Skorupi, as mais famosas. Olhava para as outras estrelas, mas não conseguia ver nenhuma forma de constelação e começou a inventar algumas.

Era isso que ele faria pelo resto da vida? Decorar informações e inventar as respostas para preencher as lacunas que não sabia?

Era por isso que não podia encarar o Professor Carvalho. Ele não conseguia nem aprender direito sobre constelações, quem dirá sobre outros assuntos mais complexos. O Professor sim tinha contribuído de alguma forma para o mundo, não era só uma pessoa que cuspia informações gravadas na memória, diferente de Gary. E de si mesmo.

“O que vou fazer do meu futuro?” era uma questão que volta e meia surgia em sua cabeça. Ouvia dos outros que era inteligente, mas não se achava. Saber das coisas é ser inteligente? Para ele importava mais o que fazer algo útil com as coisas que se sabe, e isso ele não tinha nem ideia de por onde começar.

Uma dica do que fazer. É tudo que precisava. Como ele poderia se sentir satisfeito consigo mesmo e com seu lugar no mundo? Queria que o universo lhe mostrasse o caminho.

E então algo cruzou os céus. Parecia uma estrela cadente, mas não brilhava como uma. E, podia até ser impressão dele, mas estava mais perto do que uma estrela normalmente estaria.

Red ergueu as sobrancelhas e se sentou intrigado. Não sabia o que era aquilo, mas não conseguiu desgrudar os olhos.

Aquilo com certeza não era algo que estivesse descrito em algum livro que já tenha lido. Será que aquilo era o sinal que pedira? Será que era algo desconhecido que valia a pena ser explorado, ou só mais uma coisa que ele não estudara o suficiente para saber que existia?

Enquanto permanecia paralisado encarando o céu perdido em pensamentos em um misto de emoções, teve a certeza de que “aquilo” parou por um segundo e o encarou de volta.

Um grito de surpresa ficou preso em sua garganta. O pavor foi tamanho que suprimiu qualquer som que pudesse produzir. Seus músculos se contraíram fazendo-o desequilibrar. Sua consciência voltou ao seu próprio corpo e tentou se segurar em alguma coisa, sem sucesso. Acabou caindo pela lateral da casa e finalmente conseguiu expulsar o ar de seus pulmões com um grito que logo foi abafado pelos arbustos que amorteceram sua queda.

Certificou-se que não tinha nenhum ferimento muito sério além dos arranhões que ardiam e se levantou. Aquela parecia ter sido uma boa troca: deixar de quebrar alguns ossos para quebrar alguns gravetos, e esperava que sua mãe tivesse a mesma ideia. Ele não queria receber sermões por estragar a harmonia visual do jardim.

Na varanda da casa vizinha surgiu um rangido do abrir de portas. Red sabia que de jeito nenhum aquilo terminaria bem para ele, já que as únicas pessoas que moravam naquela casa eram o Professor Carvalho, Gary, e Daisy, sua irmã mais velha. E Red não queria parecer idiota para seu ídolo, nem para seu rival, nem para seu primeiro interesse romântico. Portanto tratou logo de correr para dentro de casa antes que qualquer pessoa o visse naquela situação.

— Red?! — gritou sua mãe surpresa ao vê-lo entrar novamente pela porta da frente, coberto de arranhões, galhos e folhas. — Você tá bem? Se machucou?

— Não, não. Relaxa, mãe. Tá tudo bem, eu só escorreguei...

— Você tava no telhado de novo, né?! Eu já te disse várias vezes que não é pra ficar subindo lá! Você quer mesmo que eu tranque a janela do seu quarto e que não entre nem mais um misero raio de sol no seu quarto?! — Red abriu a boca para tentar responder, mas não teve nem ao menos a chance de pronunciar uma silaba e já foi interrompido novamente — Você já tá velho o suficiente pra saber que vai se machucar! Ai meu Arceus, para de ficar aí me olhando com essa cara de bobo! Se não tá machucado vai logo subir e tomar um banho, garoto! E espero que vá pra cama logo depois e só saia dela amanhã de manhã!

— Desculpa... — foi tudo o que conseguiu falar enquanto subia as escadas em direção ao seu quarto.

Seguindo as ordens de sua mãe, pegou um pijama velho e foi se banhar antes de deitar-se. Apesar de realmente querer limpar a sujeira do telhado e do jardim que agora estava em seu corpo, ele não queria ficar sozinho com os próprios pensamentos durante aqueles minutos do banho. Ele tinha sentimentos conflitantes. Queria saber mais sobre aquilo que tinha visto, mas achava que apenas o Professor Carvalho saberia responder e não poderia perguntar para ele! Não podia se mostrar ignorante na frente dele! O que fazer então?

Ele terminou o banho e foi se deitar sem nem se dar conta do que fazia. Estava agindo de forma automática com a mente tomada por curiosidade, insegurança e dúvida. Rolava na cama sem conseguir dormir, ruminando esses pensamentos.

O silêncio da madrugada só era quebrado pelo som do vento passando pelas frestas da janela. Uma ideia surgiu em sua mente. Começou como uma simples fagulha, mas todo o seu ser se agarrou naquele simples pensamento e o alimentou, fazendo com que crescesse e tomasse forma: Ele sairia em jornada também. Seguiria rumo ao norte, além da Rota 1, e iria procurar o que quer que fosse aquilo que passou voando pelo céu. Iria caminhar até encontrá-lo e então voltaria, agora com a certeza do saber. E então finalmente poderia conversar sobre com o Professor Carvalho, que finalmente teria algo de bom para pensar sobre ele!

Sim! Era o plano perfeito!

Imediatamente levantou da cama e começou a organizar sua mochila, fazendo o mínimo de barulho possível para que sua mãe não acordasse. Ele teria que sair um pouco antes do nascer do sol, para que ninguém o visse andando para além dos limites da cidade.

Tênis e jeans, camisa e roupa de baixo limpas. Também arrumara espaço para colocar seu lanche favorito e uma garrafa térmica com um pouco de chocolate quente, um par de luvas de borracha e uma corda. Além disso, lanterna, caderno e caneta. Não faltava mais nada.

***

Aquela noite foi estranha para os moradores de Viridian, mas ninguém se lembraria para contar. Todos dormiram profundamente àquela noite. Desde jovens festeiros que ficavam na rua até o sol raiar, conversando com amigos e bebendo vinho de qualidade duvidosa em garrafas PET, até adultos estressados, tão cheios de trabalho que estavam transbordado em adrenalina e cafeína. Não houve um único morador da cidade que não tivesse caído em um estranho sono profundo.

Todos tiveram o mesmo sonho. Estavam em um cômodo de uma casa feita de madeira. As únicas fontes de luz vinham do lado de fora, por janelas fechadas com persianas. A luz era estranha, quase psicodélica. Ninguém parecia achar estranho, mas ninguém se lembraria para contar.

A cada tique do relógio, algum móvel ou objeto simplesmente desaparecia daquele local esquisito: mesa, sofá, televisão, porta-retratos; todos iam sumindo um por um. No entanto, ninguém tinha vontade de tentar salvá-los. Olhar o relógio era tudo que queriam naquele momento.

Mas ninguém se lembraria para contar.

***

O céu arroxeado indicava que o sol estava para nascer. Red se certificou de deixar um bilhete em cima da mesa da cozinha antes de sair pela porta da frente, dando o primeiro passo para fora de casa faltando 20 minutos para o nascer do sol. Não sabia quando voltaria, estava ansioso, pelo bem e pelo mal. Apesar das dúvidas, esperava voltar em dois dias ou três, afinal, aquilo não poderia ter ido muito mais longe que a floresta de Viridian, poderia? Alguns Pidgey e Rattata não conseguiriam machucá-lo, conseguiriam?

Acompanhado por esses pensamentos, ele pisou firme na calçada e começou a caminhada até a saída da cidade pela Rota 1. Ele nunca havia ido sozinho até Viridian. Estava sempre acompanhado ou de sua mãe ou dos colegas de escola no ônibus que fazia aquele caminho diariamente. Aquela também era uma jornada para se provar.

O primeiro raio de sol tocou seus olhos assim que avistou a placa de “Volte-logo! Pallet sentirá sua falta!”. Seu coração começou a bater mais rápido. A a adrelnalina percorreu seus nervos e ele aumentou a velocidade de seus passos. Quando percebeu, estava correndo.

E tudo aconteceu muito rápido.

Ao dar o primeiro passo para fora da cidade, suas pernas balançaram a grama alta.  Um som foi ouvido. Era um Pokémon? Parecia uma interjeição de surpresa. Algo pulou em sua direção e ele tentou recuar, mas a inércia pregou-lhe uma peça. Confundiu os pés ao tentar andar para trás e tropeçou.

Foi então que seu cérebro se deu conta da situação:

Uma criatura de pelagem amarela e bochechas vermelhas que faiscavam estava em posição de ataque bem à sua frente. Apoiado nas quatro patas, o Pokémon olhava para ele expressando medo e agressividade.

Algo estava errado. Aquela rota devia ter apenas Pidgey e Rattata, no máximo algumas hordas de Oddish e Bellsprout que se escondiam por entre as árvores. Não havia nenhum Pokémon amarelo de bochechas rubras por ali, Red tinha certeza. Lera muitos livros que mostravam o habitat dos Pokémon que moravam em Kanto. E um Pokémon daquele com certeza não se encontrava ali.

Manchas marrons em suas costas e na base de sua cauda que era em formato de raio. As orelhas com pontas pretas, faíscas elétricas saindo das bochechas...

Mas é claro! Ele sabia que Pokémon era aquele!

E aquilo não era bom.

Percebeu o pelo do Pokémon se eriçar e faíscas começarem a saltar de suas bochechas rubras em uma frequência cada vez maior.

Ele seria atingido por um ataque elétrico e não tinha como se defender.



Capítulo Especial de Natal


A noite em que a esperança e a paz se cruzaram

 

A noite estava fria. A luz da lua tentava espreitar pelos ramos das grandes árvores, mas a escuridão reinava naquele momento. Aproximava-se uma tempestade a toda a velocidade.


Uma criatura de quatro patas saltou dos arbustos, correndo sem rumo. Respirava de forma ofegante enquanto os músculos das suas pequenas patas se esforçavam para correr sem parar. O pelo do seu corpo acastanhado permitia que o Pokémon se camuflasse entre a escuridão da noite, mas as suas seis caudas avermelhadas não passavam despercebidas.



Num rápido movimento, os olhos escuros de Vulpix espreitaram para trás, na direção oposta em que corria. Um grupo de rochas castanho-acinzentadas com braços musculados saltitava na sua direção. Os três Geodude eram liderados por uma criatura rochosa mais volumosa. O seu corpo era coberto de saliências e caracterizava-se por ter quatro braços fortes. Graveler rebolava pelo chão a toda velocidade, passando entre arbustos e saltando entre as raízes das árvores.



— Por favor, deixem-me em paz! — grunhiu a raposa, enquanto continuava a correr.


— Demasiado tarde! — a voz de Graveler era imponente. — Não podes roubar-nos comida e depois fugir sem sofrer as devidas consequências.


— Mas a comida não era vossa! — insistiu Vulpix, tentando contrariar o medo que sentia. — As Berries estavam na árvore.


Várias rochas foram arremessadas na direção do felino, que se esquivou agilmente de todas. O Rock Throw de Graveler não seria suficiente para travar Vulpix, que estava focado em regressar a casa, para os braços da sua mãe. A raposa expirou uma grande chama de tons laranja na direção de dois arbustos, desaparecendo atrás dos dois. Ouviram-se pequenas explosões à medida que as chamas altas de Incinerate consumiam os ramos e as folhas das verduras rastejantes. O fumo provocado pelas chamas foi suficiente para atordoar as criaturas rochosas, sem rumo entre a escuridão da noite e a ameaça do fogo.


Vulpix continuou a correr desenfreadamente. Queria certificar-se que conseguia estabelecer uma distância segura dos seus predadores. Finalmente, encontrou uma árvore suficientemente alta que pudesse utilizar como refúgio. Trepou pelos grossos e longos ramos e espreitou pelo horizonte. Ao longe, conseguia distinguir pequenas chamas e o fumo negro que provocara. Lamentava o cenário de destruição que causara, mas o seu instinto de sobrevivência falara mais alto, tal como a sua mãe ensinara.


Esboçou um pequeno sorriso, ao lembrar-se da sua família. A mãe pedira-lhe que fosse recolher mantimentos para si e os seus irmãos. A tarefa rotineira acabou por se transformar numa aventura noturna, depois de Vulpix tentar explorar uma área diferente da habitual. Recordava-se da mãe o avisar múltiplas vezes: “Tem cuidado por onde andas, Light. Nem todos os Pokémon querem ser nossos amigos”. Mas o pequeno felino nunca percebera realmente o que a mãe queria dizer. Agora, começava a ter um vislumbre disso mesmo.


Os seus pensamentos foram interrompidos por um ruído. Entre os ramos das árvores, conseguiu identificar os corpos dos três Geodude e de Graveler. Em grupo, desferiam vários Rollout contra diferentes troncos e arbustos. Pareciam desvairados, cegos por encontrar Vulpix e vingarem-se.


Seria uma questão de tempo até o voltarem a encontrar. Não podia permanecer no topo daquela árvore para sempre. Mas Vulpix não sabia para onde ir. Entre a escuridão da noite e toda a corrida para escapar às ameaças dos oponentes rochosos, a raposa afastara-se bastante do território que conhecia. Não sabia para onde ir. Pior ainda: não sabia como voltar para casa.

 

• • •

 

Um par de pequenos olhos observavam atentamente a lua. A pequena figura de corpo rosa focava-se na sua luz, concentrando as suas forças e energias. Atrás de si, erguia-se a entrada para uma caverna. A sua missão era protegê-la, mas Clefairy não parecia muito preocupada com isso.



Levantou os pequenos braços e, em simultâneo, as pontas acastanhadas das suas orelhas mexeram-se involuntariamente. Depois, as suas pernas, imóveis até então, começaram a mexer-se. Iluminada pela lua, Clefairy dançava harmoniosamente. Fazia-o de forma quase involuntária: era apaixonada por dançar ao luar.


Pequenos flocos de neve começaram a cair do céu. O vento gelado também já se fazia sentir. A tempestade chegara. Mas, mais uma vez, nada era mais importante para Clefairy do que a luz noturna emitida pela lua.


-— Já te disse, Hope! — ouviu-se uma voz estridente. — Tens de te concentrar quando estás de vigia.


Clefairy despertou rapidamente e voltou-se na direção da voz, encontrando uma figura alta de corpo rosa. Nas suas costas, pequenas asas de tom púrpura salientavam a sua beleza. Os olhos de Clefable fitavam a figura da pequena criatura.



— Desculpa, mãe. Mas é tão aborrecido estar aqui — lamentou. — Sabes que nunca acontece nada. Todas as famílias têm as suas cavernas. É mesmo necessário continuarmos neste sistema de vigia?


— É claro que sim! Não sejas tonta. Já falámos sobre isto — afirmou, severamente. — Vou voltar para dentro e vigiar as tuas irmãs. Concentra-te! — exclamou, antes de voltar para o interior da caverna.


Clefairy assentiu e voltou-se para a frente. Sentiu de novo a luz do luar incidir sobre o seu corpo, mas desta vez esforçou-se para não ceder à tentação. Vigiar a entrada da caverna era uma tarefa que a sua mãe lhe tinha atribuído por ser a filha mais velha. Mas era, de facto, uma missão enfadonha. Agora, relembrava as palavras repetidas vezes sem conta pela mãe: “Fazes ideia do que aconteceria se um Pokémon selvagem nos atacasse? Quem nos iria proteger a todas?”.


A criatura assentiu, em silêncio. Sentou-se no chão e focou o seu olhar no horizonte à sua frente. Sempre sonhara em dançar para lá da caverna da sua família. Mas as responsabilidades para com a sua mãe e irmãs sempre falaram mais alto. Seria assim para sempre. Ou, até quando deixassem de precisar dela.


Absorta nas suas reflexões, Clefairy nem se deu conta do passo apressado de uma criatura que se aproximava da entrada da caverna.


— Olá.


Clefairy levantou o olhar e surpreendeu-se com o Vulpix à sua frente. Não era habitual encontrar aquela espécie junto de Mt. Moon.


— Olá? — respondeu, surpresa.


— Desculpa incomodar-te — a pequena raposa estava inquieta e nervosa. — Preciso de ajuda.


— Oh… — murmurou a criatura rosa, curiosa. — O que se passa?


— Estou a ser perseguido. Preciso de me esconder — explicou, atravessando o olhar pela entrada da caverna, atrás de Clefairy.


— Certo… — assentiu. — A minha mãe não gosta muito que levemos estranhos para a nossa caverna.


— Eu compreendo. Mas, não tenho para onde ir. Não sei como voltar para casa. — os grunhidos de Vulpix começavam a revelar a sua fragilidade.


— Que horror — suspirou a outra. — Muito bem. Vou tentar ajudar-te.


— Obrigado! — exclamou, dando um pulo. — Como te chamas?


— Sou a Hope. E tu?


— O meu nome é Light.


Clefairy esboçou um pequeno sorriso e, por momentos, voltou o seu olhar para a lua. Depois, assentiu e concentrou-se na figura de Vulpix.


— Não sei porquê, mas confio em ti — afirmou.


— És a minha última esperança — revelou a raposa.

 

Clefairy guiou Vulpix até ao interior da caverna. O corredor estreito abriu-se num espaço largo e circular, iluminado pelo brilho suave de pequenos cristais incrustados nas paredes. A luz refletia-se pelo teto, criando uma espécie de céu estrelado. O chão da caverna era coberto por musgo seco, que isolava o frio das rochas e tornava o local mais confortável. Junto a um pedregulho, várias Clefairy dormiam enroladas umas nas outras. Mais ao fundo, numa cama circular feita de largas folhas verdes, outra criatura permanecia de forma imponente.


Light observava e admirava tudo ao seu redor. Conseguia sentir a tranquilidade e familiaridade daquele local. Estremeceu, porém, quando o seu olhar se focou no grande Pokémon rosa que agora se dirigia na sua direção. O rosto de Clefable, habitualmente sereno, agora transmitia preocupação.


— Hope? O que se passa? — perguntou, aproximando-se num passo firme.


— Mãe… este é o Light. Ele precisa de ajuda — explicou Clefairy. — Está a ser perseguido e…


— Já falámos sobre isto — interrompeu Clefable. — Não podemos trazer estranhos para dentro da nossa casa.


— Eu não quero causar problemas — garantiu Vulpix, recuando ligeiramente. — Só preciso de um sítio para descansar, por favor.


Clefable cruzou os braços e observou a pequena raposa. O olhar era duro, mas havia também um traço de preocupação. A Fairy Type reparou então que Light parecia exausto e o seu corpo estava coberto de arranhões.


–— Lamento, mas não sabemos quem és, quem te segue, nem os perigos que trazes contigo. Não posso arriscar a segurança da minha família — respondeu, num tom firme.


— O Light está sozinho! Não podemos deixá-lo lá fora com esta tempestade, mãe! — insistiu. — Eu continuo de vigia enquanto ele permanecer aqui.


— Hope… – suspirou Clefable. — Já disse que… — o seu discurso foi interrompido com um pensamento súbito. — Espera. Se estás aqui, então quem está a vigiar a entrada da caverna?


            Quando Light, Hope e Clefable regressaram à entrada da caverna, já era tarde demais. Ouviu-se um grande estrondo e, logo depois, o corpo de Graveler surgiu, lançando-se com Rollout contra a parede exterior que protegia a família de Clefairy. Atrás de si, os três Geodude reuniam pequenas rochas para arremessarem como ataque. A neve caía agora de forma mais intensa, gelando a atmosfera à volta de todos os presentes.


— Aqui está o ladrão das nossas Berries! — rosnou Graveler, apontando um dos braços para Vulpix.


Light deu um passo em frente, enchendo-se de coragem.


— Eu não roubei nada! As Berries estavam na árvore!


— Na nossa árvore! — contrapôs o Rock Type.


            — Deixem-nos em paz! — Hope colocou-se ao lado do seu novo amigo, com um olhar decidido.


— Sai da frente, princesa! — gritou um Geodude, preparando um Rock Throw.


Clefairy fechou os olhos, pronta para o impacto, que nunca chegou. Num rápido movimento, Vulpix saltou para a sua frente e lançou Ember contra o corpo de Geodude, que recuou. Apesar de ferido, a rocha permanecia de pé e consciente.


Os dois Pokémon trocaram olhares desafiadores, mas antes que algum deles voltasse a atacar, a atenção voltou-se para outro elemento presente no local. Clefable aproximou-se da frente de combate com um passo pesado, firme e decidido. Lançou um olhar de agradecimento a Light e outro mais autoritário a Hope, antes de encarar os seus adversários com um tom fulminante.


— Hope, atrás de mim. Light, mantém-te por perto — disse, de forma autoritária. — Agora, vocês, intrusos destruidores — anunciou, num tom áspero. — Ninguém se mete com a minha família.


Clefable levantou os braços e uma aura brilhante surgiu à volta do seu corpo. Disarming Voice foi lançado na direção de um Geodude, que foi arremessado para longe inconsciente.


— Menos um — murmurou Vulpix.


— Continuam dois de pé. E o Graveler — apontou Clefairy.


— Eu tomo conta dele. Vocês os dois fiquem com os restantes — comandou Clefable, assumindo a liderança da batalha.


            Os mais novos assentiram e partiram na direção dos seus adversários. Light disparou Incinerate contra um dos Geodude, que se escapou e contra-atacou com Rock Throw, ferindo o Fire Type em cheio. Do outro lado, o Moonblast de Hope parecia não causar dano significativo no Rock Type.


            No centro da arena de combate, Graveler e Clefable avançavam na direção um do outro de forma persistente. O Magical Leaf de Clefable foi anulado com o Rock Slide lançado pelo adversário. A Fairy Type tentou escapar das rochas lançadas na sua direção, mas acabou por ser ferida num dos braços. O seu olhar fulminou a figura do adversário, que esboçava um sorriso trocista.


            — Tens a certeza de que queres continuar com isto? — a voz de Graveler era rouca, mas forte.


            — Nunca desistirei de proteger a minha família!


            — Mas aquele Vulpix… não te pertence. Por que insistes em protegê-lo?


            — Porque ele precisa de ajuda. Isso é motivo suficiente para mim e para a minha família — afirmou, num tom firme.


            Do outro lado, Vulpix corria agilmente entre os dois Geodude, desferindo Quick Attack entre um e outro, enquanto Clefairy os envolvia num Fairy Wind. Isolados, os dois Rock Type começavam, finalmente, a demonstrar alguma fraqueza. Mas o rugido de Graveler fez com que ambos despertassem do transe e contra-atacassem com Bulldoze. O abanão do solo fez os dois amigos caírem redondos, enquanto eram atingidos por destroços de rochas que se levantavam da terra.


            Light tremia no chão, sentindo-se cada vez mais cansado e culpado. Não conseguia garantir que o seu corpo aguentasse durante muito mais tempo e sentia-se realmente culpado por envolver Hope e a sua família no conflito criado por si. Voltou o seu olhar brilhante para a amiga, que se tentava levantar do chão, mas sem sucesso. O seu rosto estava ferido, mas a força nos seus olhos parecia não desvanecer.


            — Desculpa, Hope — soltou, entre soluços. — A última coisa que eu queria era provocar-vos dor.


            — Light, tu não és o culpado. Fui eu que te quis ajudar, lembras-te?


            — Obrigado... — murmurou, com a lágrima a correr-lhe o rosto.


            — É isto que os amigos fazem — Clefairy esboçou um pequeno sorriso.


            — Calem-se! — gritaram os dois Geodude, lançando-se sobre ambos com Smack Down.


            Vulpix e Clefairy foram arremessados para longe. Os seus corpos estavam agora inconscientes, lado a lado. Clefable deixou escapar um uivo de fúria quando se deu conta da vitória dos Geodude, que agora se juntavam a Graveler.


            — Eu avisei! — vociferou o Rock Type. — Agora vais sofrer as consequências.


Foi quando o ar aqueceu. Uma chama dourada surgiu do topo da caverna e atravessou o recinto de batalha num arco perfeito. Era uma criatura grande e majestosa. Uma raposa de pelo clara, nove caudas e um olhar que queimava todos aqueles que atravessava. Ninetales aterrou de forma majestosa no solo. A sua pelagem brilhava sob os flocos de neve que continuavam a cair.



Os dois Geodude recuaram, escondendo-se atrás da figura de Graveler, que tinha alguma dificuldade em disfarçar a surpresa que sentia naquele momento.


— Vão pagar pelo que fizeram ao meu filho.


A ameaça de Ninetales saiu numa voz calma. Sem perder mais tempo, a grande raposa avançou com um Flamethrower que incendiou o ar, derretendo o gelo à sua volta e atacando o grupo rochoso com fogo e água. Os dois Geodude caíram redondos no chão. Graveler tentou resistir, mas o ataque era demasiado poderoso. Caiu de joelhos na neve derretida, sentindo a água infiltrar-se pelo seu corpo. O ataque da raposa prolongou-se durante vários segundos, garantindo que não havia espaço para contra-ataques. O calor era tão intenso que até Clefable teve de proteger o seu rosto.


Quando o fogo cessou, Graveler estava ofegante, queimado e sem qualquer energia para retaliar. O Rock Type levantou o olhar, encarando as duas figuras maternais à sua frente.


— Estava só a lutar pela sobrevivência da minha família — murmurou. — As Berries que o Vulpix apanhou deveriam ser nossas.


— O meu filho estava a recolher alimentos para os seus irmãos — explicou Ninetales.


— Nós não tínhamos mais comida. Aquelas Berries eram a nossa última esperança! — cortou Geodude, olhando em volta. — E agora… causamos toda esta destruição.


— Todos temos filhos e filhas que dependem de nós — Clefable deu um passo em frente. — Todos lutamos por eles. É o instituto de sobrevivência, afinal.


Ninetales assentiu. O seu olhar concentrava-se nas figuras inconsciente de Vulpix, Clefairy e Geodude.Todos tinham sido apanhados num conflito maior do que os próprios. Os seus olhos ganharam um tom mais suave e o peito mexeu-se num suspiro longo e triste. A adrenalina da batalha perdera força, sendo substituída pela profunda sensação de querer solucionar aquele conflito.


— E se lutarmos em conjunto? — questionou.

 

• • •

 

Uma fogueira improvisada ardia no centro da caverna, iluminando o interior do local com um tom quente e acolhedor. O aroma doce das Berries começava a preencher o ar, misturando-se com o cheiro a musgo húmido e pedra fria.


Num canto mais reservado da caverna, os corpos de Vulpix e Clefairy começavam a ganhar consciência. Light abriu lentamente os olhos, sentindo primeiro o calor, depois a dor suave que permanecia no seu corpo. Ao virar a cabeça, encontrou Hope deitada ao seu lado, também a despertar.


— Estás bem? — murmurou Clefairy, olhando em redor.


— Acho que sim… — respondeu Vulpix, numa voz baixa. — Onde estão todos?


Hope apontou para a zona central da caverna. Light sentou-se no solo e voltou-se para encontrar um cenário surpreendente. Clefable estava sentada perto da fogueira, distribuindo Berries em folhas largas às pequenas Clefairy. Ao seu lado, Ninetales vigiava atentamente o fogo, com um olhar concentrado. Do outro lado da fogueira, Graveler e os três Geodude repousavam, ainda com algumas marcas da batalha, mas sem qualquer intenção hostil.


— Light! — exclamou Ninetales, apercebendo-se de que o mais novo despertara finalmente. Correu na sua direção e tocou-lhe suavemente com o focinho. — Estava preocupada contigo.


— Mãe… desculpa — murmurou ele, envergonhado. — Só queria ajudar…


— Conseguiste ajudar, querido — corrigiu Ninetales, com uma voz doce. — E fizeste novos amigos pelo caminho.


Clefable também se aproximou, abraçando Clefairy com um sorriso cansado, mas sincero.


— Já passou — afirmou. — Agora venham comer, antes que arrefeça.


            O grupo aproximou-se do centro da caverna e sentou-se à volta da fogueira. Light e Hope sentaram-se lado a lado, enquanto Clefable lhes colocava à frente um conjunto variado de Berries, cuidadosamente cedidas e preparadas por Ninetales.


— Estas Berries são para todos — afirmou a raposa.


— E esta caverna pode abrigar várias famílias — sorriu a Fairy Type.


— Partilhar é melhor do que destruir — concordou Graveler, aproximando-se do grupo.


            Vulpix, Clefairy e Geodude entreolharam-se, surpresos com a transformação dos mais velhos.


            — Aprendemos muito com vocês — confirmou Clefable.


— Nós exagerámos — admitiu o Rock Type, com dificuldade. — Estávamos desesperados e lutámos pelos motivos errados.


— Não há vergonha em lutar pela nossa família — respondeu Ninetales. – Mas é necessário reconhecer quando é altura de parar.


Os Geodude assentiram timidamente, aproximando-se da fogueira. Cada um recebeu o seu pequeno conjunto de Berries.


— Podemos ajudar a reparar o que destruímos lá fora — falou um deles, hesitante.


            — Posso juntar-me a vocês! — exclamou Vulpix.


— Isso seria bom — concordou Clefairy. — Trabalhar juntos é mais divertido do que lutar.


Light esboçou um sorriso de gratidão. O calor da fogueira parecia intensificar-se dentro dele, como se algo se tivesse finalmente alinhado no seu pequeno mundo. Ninetales pousou a sua cauda sobre o dorso do filho, num gesto de ternura.


— Devíamos aproveita para descansar, querido. Amanhã, quando a tempestade passar, vamos encontrar o caminho de volta para casa.


— E… eu posso visitá-lo? — perguntou Clefairy, inclinando a cabeça com um brilho de esperança nos olhos.


            Ninetales esboçou um sorriso, mas voltou o olhar para Clefable que se juntou à cena de braços abertos.


— Claro que sim, minha pequena — respondeu.


— Obrigado! — grunhiu Vulpix. — Parece que a nossa família acabou de ficar maior.


Hope riu-se baixinho, encostando-se ao ombro de Light. A fogueira continuou a arder, iluminando o grupo de criaturas improváveis, unidos não pela força, mas pela compreensão. Enquanto a tempestade continuava lá fora, no interior da caverna reinava algo muito mais poderoso. Pela primeira vez naquela noite, todos sentiram a mesma coisa: segurança, esperança e paz.


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