Capítulo 1 - O que há para conhecer
Pallet era uma cidade pacata no Oeste; daquelas típicas onde não se tinha muito para fazer. Havia algumas casas espalhadas pela cidade, normalmente acompanhada de uma pequena horta, nas quais os moradores plantavam e colhiam para subsistência e o que sobrava, era trocado com os vizinhos por vegetais diferentes ou vendido na feira que ocorria semanalmente em Viridian. Os mais abastados tinham
terrenos maiores e produziam em maior nível, as vezes até criando alguns
Pokémon, mas nada grande o suficiente para ser chamado de “Fazenda”, todos esses
tinham orgulho de ter uma boa “roça”. Os adultos passavam os dias trabalhando,
o que se resumia em cuidar das plantações ou, para aqueles que almejavam uma vida
menos interiorana, ir à Viridian trabalhar em algum comércio.
Os
adolescentes eram obrigados a seguir diariamente o caminho pela Rota 1 até
Viridian, já que a escola em Pallet só dava aulas até o sexto ano. Antigamente,
quando mal havia energia elétrica para abastecer a cidade, a escola local
servia mais como uma creche, para os pais deixarem seus filhos sob alguma
supervisão enquanto trabalhavam, e assim que as crianças eram alfabetizadas,
seus pais decidiam entre matriculá-las em uma escola em Viridian ou fazê-los
ajudar na roça ou nos trabalhos domésticos. A maioria dos adolescentes atuais
estavam felizes pela época em que nasceram, afinal não precisavam trabalhar — apesar
de ainda terem que ajudar com tarefas domésticas — e tinham acesso ao ensino
básico completo, até mesmo aqueles que não gostavam muito de estudar.
Há alguns anos um renomado pesquisador, Professor Samuel Carvalho, se mudou para a cidade e — apesar da desconfiança inicial da maioria dos moradores que o consideraram um “arrogante da cidade grande” — contratou um serviço de micro-ônibus, que pagara do próprio bolso, para levar os estudantes até a escola em Viridian, o que diminuiu o tempo do trajeto de 2 horas para quinze minutos. Alguns dos mais velhos ainda diziam que andar todo o caminho criava caráter, mas a maioria da população o respeitava e era grata pela ação, principalmente os estudantes que agora tinham um pouquinho mais de tempo livre.
Mas apesar
da distância da cidade e da falta de atividades de lazer, as crianças nunca
reclamavam de Pallet. Claro que elas já tinham ouvido falar de shopping
centers, onde podiam tomar sorvete e jogar videogames em fliperamas, e
tinham vontade de conhecer — e algumas até mesmo tinham vontade de ir além de
Viridian para conhecer as delícias e maravilhas das maiores metrópoles de Kanto
— mas a energia e imaginação que possuíam fazia com que pudessem brincar de
qualquer coisa em qualquer lugar. Grande parte das crianças mais velhas já
tinham que ajudar com algumas tarefas em casa, mas era costume que depois que
terminassem todas os afazeres, incluindo também o dever de casa passado pelos
professores, se reuniam na praça central da cidade para brincar.
Era
final de tarde num sábado, por tanto, sem aulas. Crianças e adolescentes
estavam no “Largo”, a área da cidade em que a maior parte da socialização entre
moradores acontecia. Uma estátua de dois metros de altura feita em pedra sabão esculpida
na forma de três pássaros marcava o centro da praça e era orbitada por vários
bancos de pedra branca e pequenos arbustos bem cuidados. Um grupo de jovens
estavam em roda, cercando outras duas crianças que se encaravam seriamente,
como se estivessem numa briga.
— E aí
eu tenho um Oddish e ele vai usar Razor Leaf! — exclamou uma garota por
volta dos 9 anos de idade com um pulo para trás, esticando os braços para
frente e abrindo as mãos com força. Falava como se realmente houvesse um
Pokémon a sua frente, e ela estivesse lhe dando ordens.
— E eu
tenho um Poliwag que usa Bubble! — gritou a outra criança, um garoto da
mesma faixa etária, fazendo gestos intensos, também imaginando um monstrinho ali
que pudesse controlar e agora iam começar uma batalha emocionante. — Então eu
ganho!
— Nada
disso! Eu ganhei porque meu Oddish vai ser mais forte! — bradou a garota, nervosa
com seu amigo que claramente não entendia que em batalhas hipotéticas de
Pokémon imaginários ela seria a melhor.
— Nem
pensar! — respondeu o menino. — Meu Polwag é claramente mais forte que seu
Oddish!
—
Claro que não, bobo! Grama é mais forte que água!
—
Mentirosa! Como que isso é verdade se a gente rega a planta com água e a
planta cresce e fica mais forte? Eu ganhei!
Os
dois começaram uma discussão intensa que logo ficara inaudível com os
incentivos jocosos da plateia ao redor ficando cada vez mais altos.
— Na
verdade, Razor Leaf é um movimento do tipo Grama, que é super efetivo contra
um Pokémon do tipo água como Poliwag — interrompeu um garoto mais velho, já na
adolescência com seus 14 anos de idade, que estava com as costas apoiadas na
estátua central fazendo pose de rebelde com os braços cruzados. Todos se
calaram para ouvir o que ele tinha a dizer. — Então Oddish seria o vencedor
desse duelo.
As
duas crianças olharam para ele com brilho nos olhos. A roda de jovens se abriu
para deixá-lo em foco. Apesar de ser apenas um adolescente, aquele ali era
muito conhecido na cidade. Gary era seu nome, mas seu sobrenome, Carvalho, era
o que fazia com que fosse conhecido e respeitado, já que trazia consigo todo o
peso da fama de seu avô, o Samuel Carvalho.
Ao
ouvir a análise feita por Gary, o menino mais novo ficou cabisbaixo,
visivelmente triste.
—
Poxa... Meu Poliwag não ganhou...
—
Valeu, Gary! Você é demais mesmo, sabe de tudo! — agradeceu a garotinha pulando
de felicidade e verdadeira admiração.
— É
sempre um prazer ajudar com meu conhecimento — comentou com certa arrogância. —
Eu sei de tudo porque meu avô me ensinou tudo o que ele sabe, e ele é simplesmente
o melhor cientista Pokémon do mundo! — terminou aumentando o volume de sua voz
para chamar a atenção das pessoas ao redor.
— Uau!
— respondeu o grupo de jovens em uníssono.
Gary
então ajeitou o corpo, se preparando para iniciar um discurso. Ele se importava
em como se parecia para as outras pessoas, não atoa tinha um estilo que parecia
desleixado, mas cuidadosamente escolhido. Se ele não fosse neto de seu avô,
seria o tipo de adolescente que os pais iriam querer longe de seus filhos.
Naquele dia vestia uma camisa larga e folgada em um tom forte de azul,
combinada a uma calça preta e um par de botas marrom. Para completar o visual,
um colar com um pingente circular dourado e o cabelo castanho meticulosamente
espetado com gel.
— E
por causa disso amanhã meu avô vai me dar um Pokémon muito raro para que eu
comece minha jornada. Será o primeiro passo para que eu seja conhecido no mundo
inteiro como o maior treinador de todos os tempos!
Logo,
o falatório voltou a tomar conta do grupinho. Entre aplausos e sussurros, todos
comentavam sobre como aquele momento era incrível e maravilhoso.
— Quer
dizer então que você vai entrar em um shopping center de verdade? Isso é
maneiro! — exclamou um dos garotos mais velhos.
— Quer
dizer que... Você não vai mais frequentar a escola? — perguntou uma adolescente
começando a ruborizar, temendo que nunca mais veria aquele por quem nutria
sentimentos especiais.
— Eu
não preciso mais da escola. Lembra daquela prova de Conhecimentos Gerais que eu
fiz? Mostrou que já estou apto a ser um treinador e viajar por toda a região.
— Ah,
não! — exclamou ela com os olhos marejados.
— Meus
pêsames, mas esse é o destino que me aguarda.
A essa
altura, uma multidão de quase trinta crianças e adolescentes estavam amontoadas
em frente a Gary para ouvir o que ele tinha a falar, encantadas. Elas faziam as
mais variadas perguntas e o garoto as respondia, fazendo com que sua plateia
gritasse eufórica.
— O
que você vai fazer na sua jornada? — perguntou um garoto.
— Eu
vou explorar toda a região de Kanto e conseguir todas as oito insígnias.
— E
qual vai ser esse Pokémon raro que seu vô vai te dar? — perguntou outra moça.
—
Vocês verão. Amanhã! O que eu posso dizer é que eu já tenho vários tipos de
estratégias montadas e já sei o que me espera além da Rota 1. O orgulho da
Cidade de Pallet atenderá pelo nome de Gary Carvalho!
Mais
aplausos e ovações. Quanto mais o bajulavam, mais seu ego inflava.
— Se
você já sabe de tudo, qual a graça de sair em jornada? — provocou uma voz
próxima.
Um
garoto da mesma idade de Gary permanecia sentado em um banco próximo. Trajava
uma camiseta preta e calça jeans azul que faziam com que não se destacasse
muito entre as pessoas ali, exceto talvez de esconder seu cabelo preto com um
boné vermelho e branco que combinava com seus tênis brancos com listras
vermelhas.
Fingiu
estar lendo um livro só para ouvir toda a palestra que Gary montara para inflar
o próprio ego. Ele se irritava com aquilo. Tinha sido da mesma turma que Gary
na escola desde a creche e nutria uma raiva tão antiga não lembrava quando havia
começado.
Ele
sentia que era a única pessoa em toda Pallet que percebia a verdade sobre Gary
não ser o que parecia. Sabia que todas as ações do outro eram apenas por
questões ególatras, não se importava com os outros, contato que o achassem
legal, maneiro ou incrível. Além do fato que o próprio Gary nunca tinha feito
nada e se apoiava apenas no nome e fama de seu avô, esse sim alguém que deveria
ser admirado.
Gary
percebeu quem tinha falado e não conseguiu segurar uma expressão rápida de
desprezo. Desceu do banco em que tinha subido para usar de palanque perante seu
jovem público e se dirigiu ao garoto que o desafiava.
— Ora,
ora, se não é o Red? Claro que é... — comentou revirando os olhos. — Respondendo
a sua pergunta: A graça é que só se vive uma vez, oras. Então que seja fazendo
algo grandioso!
— Mas
você já não sabe tudo e tem suas estratégias perfeitas? Se as pessoas já sabem
de tudo, não tem por que gastar energia com isso — respondeu abaixando o livro
e encarando o outro. — E se ainda tiver alguma dúvida pode correr pro vovô,
né?
— Você
acha que é cool fingir desinteresse? — perguntou Gary que não deixaria
passar uma chance de provocar seu maior inimigo. — Saiba que não é qualquer um
que ganha uma Licença de Treinador ou o Pokémon inicial que eu vou
ganhar!
—
Então vai lá. Boa sorte na sua aventura juntando os oito broches e
ganhando dos Altos Cinco — retrucou Red, errando os nomes de propósito
para demonstrar desinteresse e irritar Gary.
— São
insígnias, não broches! E se chama Elite Quatro!!! Não acredito que você seja
tão burro! — bradou Gary, completamente irritado enquanto Red sustentava um
sorriso de vitória. Ver Gary sair do personagem na frente dos fãs foi o melhor
momento do seu dia.
Então
fechou seu livro, levantou, e deu de costas, começando a andar de volta para
casa, ouvindo ofensas e xingamentos de seu rival. Mas nada apagava
aquele sorriso de seu semblante.
***
Red
tinha sentimentos mistos sobre viver em Pallet. Era uma cidade pacata, e ele
gostava do fato que não tinha muita agitação por ali. Tinha uma vida calma e
tranquila, mas ao mesmo tempo queria ter a chance de conhecer mais pessoas.
Todos que ele conhecia ali idolatravam Gary Carvalho — mesmo que fosse apenas
para ser incluído na rodinha dos populares que o cercavam — então não tinha com
quem conversar sobre o fato de Gary ser um babaca.
Tirando
o fato que todos os adolescentes de Pallet passavam a maior parte do tempo
falando sobre sair de Pallet e morar em uma “cidade de verdade”. Red não
entendia isso muito bem. Ele já sabia como era viver numa cidade agitada pelos
relatos em seus livros, tanto biografias quanto ficções.
Acabou
que durante maior parte de sua segunda infância e toda sua adolescência, seus
amigos eram os livros. E ele gostava de ler tudo. Errava algumas coisas de
proposito para irritar Gary as vezes, mas a verdade era que também era esperto.
Desde
que começou a frequentar a escola em Viridian, Red estudava apenas o suficiente
para conseguir uma nota média e se aprovado. Usava o resto de seu tempo pegando
livros emprestados na biblioteca e os lendo em seu quarto, ou no telhado de sua
casa, sob as estrelas.
Naquele
momento estava lendo pela segunda vez “Samuel Carvalho: A humildade de um
gênio”, a biografia não-oficial. O pesquisador já morava em Pallet desde antes
de Red nascer, e ouvir como as outras pessoas falavam daquele senhor que
parecia ser uma pessoa simples e que até morava na casa vizinha, fez que Red
desenvolvesse uma grande admiração. Apesar de não admitir, ele havia se tornado
um grande fã.
Entretanto,
nunca teve coragem de conversar muito com o professor. As poucas vezes em que
teve a oportunidade de falar com ele, o garoto não se sentiu seguro em manter
uma conversa de alto nível com alguém que sabia de tudo o que havia para se
saber e, por isso, as poucas palavras que conseguiu trocar se resumiam a: “Olá,
boa tarde, que dia bonito, não é mesmo?”. Que vergonha.
Ele
simplesmente travava de medo em frente ao professor. E se o homem puxasse algum
assunto, perguntasse sobre algo que Red não soubesse responder e ele tivesse de
ouvir algo do tipo “como você não sabe disso? Nunca leu tal livro sobre o
assunto?”. Pior: E se risse de sua cara por alguma pergunta boba que fizesse?
A
biografia dizia que Samuel Carvalho era uma pessoa humilde. Havia sido um
renomado pesquisador na Universidade Celadon para Ensino e Desenvolvimento da Ciência,
a UniCeladon . Mudara-se para Pallet com o objetivo de realizar seus estudos em
um ambiente tranquilo, com o mínimo de interferência humana possível. E aquela
cidadezinha era a ideal. Seus colegas de pesquisa da universidade acharam
loucura trocar o borbulhante ambiente universitário e científico por um
“vilarejo esquecido no mapa” e nenhum deles quis o acompanhar, apesar dele
receber um estudante ou outro por algumas semanas. Em seu novo laboratório,
realizou incríveis pesquisas que mudaram o rumo da ciência natural no mundo
inteiro.
Red
sabia disso. As vezes pensava que era besteira ter aquele medo. Mas seu eu
irracional falava mais alto sempre que encontrava o professor e ele
simplesmente não conseguia manter uma conversa.
Talvez
se ele fosse amigo de Gary perderia esse medo e teria chance de se aproximar do
professor, mas ele não aguentava ver o colega usar o mérito do seu avô para
benefício próprio. Apesar disso sabia que, infelizmente, Gary também era
bastante esperto.
Finalmente
chegou em casa após andar algumas quadras. Entrou pela porta e logo viu sua mãe
colocando a janta na mesa: rodelas de inhame cozido com manteiga e alguns ovos
fritos. Estava feliz em ver sua mãe. Seu rosto familiar com olhos amendoados e
cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo, mas com algumas mechas cobrindo
seu rosto enquanto arrumava os talheres sobre a mesa. Levou os braços às costas
e desamarrou o aventou, revelando uma blusa roxa de mangas longas que ornava
muito vem com a saia longa de cor lilás.
— Oi,
filhote! Que cara é essa? — perguntou ela, Joana, preocupada com a expressão
cansada do filho.
— Nada
não... — respondeu cabisbaixo. — Só o Gary de novo...
— Você
sabia que eu até acho ele um bom menino? Acho que você devia ter mais paciência
com ele — incentivou com um sorriso, enquanto puxava uma cadeira para que o
garoto se sentasse.
— A
senhora diz isso porque não tava lá — retrucou com a cara emburrada enquanto se
sentava na cadeira e começava a se servir. — “Eu sou o melhor!”, “Meu avô sabe
tudo!”, ele é um pé no saco!
— Eu
acho que vocês têm tudo pra se dar bem um dia, sabia? — comentou sorrindo, o
que gerou uma feição de nojo no rosto do filho e a fez cair na risada.
Eles
conversaram um pouco mais sobre casualidades durante o jantar, mas Red comera
apressadamente e subira para seu quarto.
Ele
ignorou a mesa bagunçada no canto, passou direto pela televisão de 14 polegadas
conectada ao seu Super Nintendo empoeirado e parou em pé ao lado de sua cama,
onde estava o livro que estava lendo nos últimos dias. Encarou o livro com um
suspiro e o pegou, junto também de uma lanterna que estava sobre a mesa de
cabeceira e a colocou no bolso. Dirigiu-se até a janela que estava aberta e
subiu no parapeito com cuidado, ergueu a mão livre para fora e tateou o telhado
até sentir a textura de corda que havia deixado ali presa em uma das vigas. Com
um puxão, a corda caiu em direção ao solo e esticou-se formando uma escada em
sua frente, permitindo que subisse até o telhado.
Com
muita calma, calculou onde daria os próximos passos entre as telhas para não as
quebrar, e avançou um pouco até achar um bom lugar para se deitar. Ligou a
lanterna, abriu o livro, e ali ficou por algumas horas.
...
Já era
tarde da noite e o livro agora estava aberto sobre seu peito e já tinha
desligado a lanterna. Agora observava as estrelas pensando como que tinham
conseguido mapeá-las há tanto tempo. Conhecia algumas como as de Casal de
Pikachu, Arcanine, Gardevoir, Chandelure e Skorupi, as mais famosas. Olhava
para as outras estrelas, mas não conseguia ver nenhuma forma de constelação e
começou a inventar algumas.
Era
isso que ele faria pelo resto da vida? Decorar informações e inventar as
respostas para preencher as lacunas que não sabia?
Era
por isso que não podia encarar o Professor Carvalho. Ele não conseguia nem
aprender direito sobre constelações, quem dirá sobre outros assuntos mais
complexos. O Professor sim tinha contribuído de alguma forma para o mundo, não
era só uma pessoa que cuspia informações gravadas na memória, diferente de
Gary. E de si mesmo.
“O que
vou fazer do meu futuro?” era uma questão que volta e meia surgia em sua cabeça.
Ouvia dos outros que era inteligente, mas não se achava. Saber das coisas é ser
inteligente? Para ele importava mais o que fazer algo útil com as coisas que se
sabe, e isso ele não tinha nem ideia de por onde começar.
Uma
dica do que fazer. É tudo que precisava. Como ele poderia se sentir satisfeito
consigo mesmo e com seu lugar no mundo? Queria que o universo lhe mostrasse o
caminho.
E
então algo cruzou os céus. Parecia uma estrela cadente, mas não brilhava como
uma. E, podia até ser impressão dele, mas estava mais perto do que uma estrela
normalmente estaria.
Red
ergueu as sobrancelhas e se sentou intrigado. Não sabia o que era aquilo, mas
não conseguiu desgrudar os olhos.
Aquilo
com certeza não era algo que estivesse descrito em algum livro que já tenha
lido. Será que aquilo era o sinal que pedira? Será que era algo desconhecido
que valia a pena ser explorado, ou só mais uma coisa que ele não estudara o
suficiente para saber que existia?
Enquanto
permanecia paralisado encarando o céu perdido em pensamentos em um misto de
emoções, teve a certeza de que “aquilo” parou por um segundo e o encarou de
volta.
Um
grito de surpresa ficou preso em sua garganta. O pavor foi tamanho que suprimiu
qualquer som que pudesse produzir. Seus músculos se contraíram fazendo-o
desequilibrar. Sua consciência voltou ao seu próprio corpo e tentou se segurar
em alguma coisa, sem sucesso. Acabou caindo pela lateral da casa e finalmente conseguiu
expulsar o ar de seus pulmões com um grito que logo foi abafado pelos arbustos
que amorteceram sua queda.
Certificou-se
que não tinha nenhum ferimento muito sério além dos arranhões que ardiam e se
levantou. Aquela parecia ter sido uma boa troca: deixar de quebrar alguns ossos
para quebrar alguns gravetos, e esperava que sua mãe tivesse a mesma ideia. Ele
não queria receber sermões por estragar a harmonia visual do jardim.
Na
varanda da casa vizinha surgiu um rangido do abrir de portas. Red sabia que de
jeito nenhum aquilo terminaria bem para ele, já que as únicas pessoas que
moravam naquela casa eram o Professor Carvalho, Gary, e Daisy, sua irmã mais
velha. E Red não queria parecer idiota para seu ídolo, nem para seu rival, nem
para seu primeiro interesse romântico. Portanto tratou logo de correr para
dentro de casa antes que qualquer pessoa o visse naquela situação.
— Red?!
— gritou sua mãe surpresa ao vê-lo entrar novamente pela porta da frente,
coberto de arranhões, galhos e folhas. — Você tá bem? Se machucou?
— Não,
não. Relaxa, mãe. Tá tudo bem, eu só escorreguei...
— Você
tava no telhado de novo, né?! Eu já te disse várias vezes que não é pra ficar
subindo lá! Você quer mesmo que eu tranque a janela do seu quarto e que não
entre nem mais um misero raio de sol no seu quarto?! — Red abriu a boca para
tentar responder, mas não teve nem ao menos a chance de pronunciar uma silaba e
já foi interrompido novamente — Você já tá velho o suficiente pra saber que vai
se machucar! Ai meu Arceus, para de ficar aí me olhando com essa cara de bobo!
Se não tá machucado vai logo subir e tomar um banho, garoto! E espero que vá
pra cama logo depois e só saia dela amanhã de manhã!
—
Desculpa... — foi tudo o que conseguiu falar enquanto subia as escadas em
direção ao seu quarto.
Seguindo
as ordens de sua mãe, pegou um pijama velho e foi se banhar antes de deitar-se.
Apesar de realmente querer limpar a sujeira do telhado e do jardim que agora
estava em seu corpo, ele não queria ficar sozinho com os próprios pensamentos
durante aqueles minutos do banho. Ele tinha sentimentos conflitantes. Queria
saber mais sobre aquilo que tinha visto, mas achava que apenas o Professor
Carvalho saberia responder e não poderia perguntar para ele! Não podia se
mostrar ignorante na frente dele! O que fazer então?
Ele
terminou o banho e foi se deitar sem nem se dar conta do que fazia. Estava
agindo de forma automática com a mente tomada por curiosidade, insegurança e
dúvida. Rolava na cama sem conseguir dormir, ruminando esses pensamentos.
O
silêncio da madrugada só era quebrado pelo som do vento passando pelas frestas
da janela. Uma ideia surgiu em sua mente. Começou como uma simples fagulha, mas
todo o seu ser se agarrou naquele simples pensamento e o alimentou, fazendo com
que crescesse e tomasse forma: Ele sairia em jornada também. Seguiria rumo ao
norte, além da Rota 1, e iria procurar o que quer que fosse aquilo que passou
voando pelo céu. Iria caminhar até encontrá-lo e então voltaria, agora com a
certeza do saber. E então finalmente poderia conversar sobre com o Professor
Carvalho, que finalmente teria algo de bom para pensar sobre ele!
Sim!
Era o plano perfeito!
Imediatamente
levantou da cama e começou a organizar sua mochila, fazendo o mínimo de barulho
possível para que sua mãe não acordasse. Ele teria que sair um pouco antes do
nascer do sol, para que ninguém o visse andando para além dos limites da cidade.
Tênis
e jeans, camisa e roupa de baixo limpas. Também arrumara espaço para colocar
seu lanche favorito e uma garrafa térmica com um pouco de chocolate quente, um
par de luvas de borracha e uma corda. Além disso, lanterna, caderno e caneta.
Não faltava mais nada.
***
Aquela
noite foi estranha para os moradores de Viridian, mas ninguém se lembraria para
contar. Todos dormiram profundamente àquela noite. Desde jovens festeiros que
ficavam na rua até o sol raiar, conversando com amigos e bebendo vinho de
qualidade duvidosa em garrafas PET, até adultos estressados, tão cheios de
trabalho que estavam transbordado em adrenalina e cafeína. Não houve um único
morador da cidade que não tivesse caído em um estranho sono profundo.
Todos
tiveram o mesmo sonho. Estavam em um cômodo de uma casa feita de madeira. As
únicas fontes de luz vinham do lado de fora, por janelas fechadas com
persianas. A luz era estranha, quase psicodélica. Ninguém parecia achar
estranho, mas ninguém se lembraria para contar.
A cada
tique do relógio, algum móvel ou
objeto simplesmente desaparecia daquele local esquisito: mesa, sofá, televisão,
porta-retratos; todos iam sumindo um por um. No entanto, ninguém tinha vontade
de tentar salvá-los. Olhar o relógio era tudo que queriam naquele momento.
Mas
ninguém se lembraria para contar.
***
O céu
arroxeado indicava que o sol estava para nascer. Red se certificou de deixar um
bilhete em cima da mesa da cozinha antes de sair pela porta da frente, dando o
primeiro passo para fora de casa faltando 20 minutos para o nascer do sol. Não
sabia quando voltaria, estava ansioso, pelo bem e pelo mal. Apesar das dúvidas,
esperava voltar em dois dias ou três, afinal, aquilo não poderia ter ido
muito mais longe que a floresta de Viridian, poderia? Alguns Pidgey e Rattata
não conseguiriam machucá-lo, conseguiriam?
Acompanhado
por esses pensamentos, ele pisou firme na calçada e começou a caminhada até a
saída da cidade pela Rota 1. Ele nunca havia ido sozinho até Viridian. Estava
sempre acompanhado ou de sua mãe ou dos colegas de escola no ônibus que fazia
aquele caminho diariamente. Aquela também era uma jornada para se provar.
O
primeiro raio de sol tocou seus olhos assim que avistou a placa de “Volte-logo!
Pallet sentirá sua falta!”. Seu coração começou a bater mais rápido. A a
adrelnalina percorreu seus nervos e ele aumentou a velocidade de seus passos. Quando
percebeu, estava correndo.
E tudo
aconteceu muito rápido.
Ao dar
o primeiro passo para fora da cidade, suas pernas balançaram a grama alta. Um som foi ouvido. Era um Pokémon? Parecia uma
interjeição de surpresa. Algo pulou em sua direção e ele tentou recuar, mas a
inércia pregou-lhe uma peça. Confundiu os pés ao tentar andar para trás e tropeçou.
Foi
então que seu cérebro se deu conta da situação:
Uma
criatura de pelagem amarela e bochechas vermelhas que faiscavam estava em
posição de ataque bem à sua frente. Apoiado nas quatro patas, o Pokémon olhava
para ele expressando medo e agressividade.
Algo
estava errado. Aquela rota devia ter apenas Pidgey e Rattata, no máximo algumas
hordas de Oddish e Bellsprout que se escondiam por entre as árvores. Não havia nenhum Pokémon amarelo de bochechas
rubras por ali, Red tinha certeza. Lera muitos livros que mostravam o
habitat dos Pokémon que moravam em Kanto. E um Pokémon daquele com certeza não se encontrava ali.
Manchas
marrons em suas costas e na base de sua cauda que era em formato de raio. As
orelhas com pontas pretas, faíscas elétricas saindo das bochechas...
Mas é
claro! Ele sabia que Pokémon era aquele!
E
aquilo não era bom.
Percebeu o pelo do Pokémon se eriçar e faíscas começarem a saltar de suas bochechas rubras em uma frequência cada vez maior.
Ele
seria atingido por um ataque elétrico e não tinha como se defender.
Capítulo Especial de Natal
A noite em que a esperança e a paz se cruzaram
A
noite estava fria. A luz da lua tentava espreitar pelos ramos das grandes
árvores, mas a escuridão reinava naquele momento. Aproximava-se uma tempestade
a toda a velocidade.
Uma criatura de quatro patas saltou dos arbustos, correndo sem rumo. Respirava de forma ofegante enquanto os músculos das suas pequenas patas se esforçavam para correr sem parar. O pelo do seu corpo acastanhado permitia que o Pokémon se camuflasse entre a escuridão da noite, mas as suas seis caudas avermelhadas não passavam despercebidas.
Num
rápido movimento, os olhos escuros de Vulpix espreitaram para trás, na direção
oposta em que corria. Um grupo de rochas castanho-acinzentadas com braços
musculados saltitava na sua direção. Os três Geodude eram liderados por uma
criatura rochosa mais volumosa. O seu corpo era coberto de saliências e
caracterizava-se por ter quatro braços fortes. Graveler rebolava pelo chão a
toda velocidade, passando entre arbustos e saltando entre as raízes das
árvores.
—
Por favor, deixem-me em paz! — grunhiu a raposa, enquanto continuava a correr.
—
Demasiado tarde! — a voz de Graveler era imponente. — Não podes roubar-nos
comida e depois fugir sem sofrer as devidas consequências.
—
Mas a comida não era vossa! — insistiu Vulpix, tentando contrariar o medo que
sentia. — As Berries estavam na árvore.
Várias
rochas foram arremessadas na direção do felino, que se esquivou agilmente de
todas. O Rock Throw de Graveler não seria suficiente para travar Vulpix,
que estava focado em regressar a casa, para os braços da sua mãe. A raposa
expirou uma grande chama de tons laranja na direção de dois arbustos,
desaparecendo atrás dos dois. Ouviram-se pequenas explosões à medida que as
chamas altas de Incinerate consumiam os ramos e as folhas das verduras rastejantes.
O fumo provocado pelas chamas foi suficiente para atordoar as criaturas
rochosas, sem rumo entre a escuridão da noite e a ameaça do fogo.
Vulpix
continuou a correr desenfreadamente. Queria certificar-se que conseguia
estabelecer uma distância segura dos seus predadores. Finalmente, encontrou uma
árvore suficientemente alta que pudesse utilizar como refúgio. Trepou pelos
grossos e longos ramos e espreitou pelo horizonte. Ao longe, conseguia
distinguir pequenas chamas e o fumo negro que provocara. Lamentava o cenário de
destruição que causara, mas o seu instinto de sobrevivência falara mais alto,
tal como a sua mãe ensinara.
Esboçou
um pequeno sorriso, ao lembrar-se da sua família. A mãe pedira-lhe que fosse
recolher mantimentos para si e os seus irmãos. A tarefa rotineira acabou por se
transformar numa aventura noturna, depois de Vulpix tentar explorar uma área
diferente da habitual. Recordava-se da mãe o avisar múltiplas vezes: “Tem
cuidado por onde andas, Light. Nem todos os Pokémon querem ser nossos amigos”.
Mas o pequeno felino nunca percebera realmente o que a mãe queria dizer. Agora,
começava a ter um vislumbre disso mesmo.
Os
seus pensamentos foram interrompidos por um ruído. Entre os ramos das árvores,
conseguiu identificar os corpos dos três Geodude e de Graveler. Em grupo,
desferiam vários Rollout contra diferentes troncos e arbustos. Pareciam
desvairados, cegos por encontrar Vulpix e vingarem-se.
Seria
uma questão de tempo até o voltarem a encontrar. Não podia permanecer no topo
daquela árvore para sempre. Mas Vulpix não sabia para onde ir. Entre a
escuridão da noite e toda a corrida para escapar às ameaças dos oponentes
rochosos, a raposa afastara-se bastante do território que conhecia. Não sabia
para onde ir. Pior ainda: não sabia como voltar para casa.
•
• •
Um
par de pequenos olhos observavam atentamente a lua. A pequena figura de corpo
rosa focava-se na sua luz, concentrando as suas forças e energias. Atrás de si,
erguia-se a entrada para uma caverna. A sua missão era protegê-la, mas Clefairy
não parecia muito preocupada com isso.
Levantou
os pequenos braços e, em simultâneo, as pontas acastanhadas das suas orelhas
mexeram-se involuntariamente. Depois, as suas pernas, imóveis até então,
começaram a mexer-se. Iluminada pela lua, Clefairy dançava harmoniosamente.
Fazia-o de forma quase involuntária: era apaixonada por dançar ao luar.
Pequenos
flocos de neve começaram a cair do céu. O vento gelado também já se fazia
sentir. A tempestade chegara. Mas, mais uma vez, nada era mais importante para
Clefairy do que a luz noturna emitida pela lua.
-—
Já te disse, Hope! — ouviu-se uma voz estridente. — Tens de te concentrar
quando estás de vigia.
Clefairy
despertou rapidamente e voltou-se na direção da voz, encontrando uma figura
alta de corpo rosa. Nas suas costas, pequenas asas de tom púrpura salientavam a
sua beleza. Os olhos de Clefable fitavam a figura da pequena criatura.
—
Desculpa, mãe. Mas é tão aborrecido estar aqui — lamentou. — Sabes que nunca
acontece nada. Todas as famílias têm as suas cavernas. É mesmo necessário
continuarmos neste sistema de vigia?
—
É claro que sim! Não sejas tonta. Já falámos sobre isto — afirmou, severamente.
— Vou voltar para dentro e vigiar as tuas irmãs. Concentra-te! — exclamou,
antes de voltar para o interior da caverna.
Clefairy
assentiu e voltou-se para a frente. Sentiu de novo a luz do luar incidir sobre
o seu corpo, mas desta vez esforçou-se para não ceder à tentação. Vigiar a
entrada da caverna era uma tarefa que a sua mãe lhe tinha atribuído por ser a
filha mais velha. Mas era, de facto, uma missão enfadonha. Agora, relembrava as
palavras repetidas vezes sem conta pela mãe: “Fazes ideia do que aconteceria se
um Pokémon selvagem nos atacasse? Quem nos iria proteger a todas?”.
A
criatura assentiu, em silêncio. Sentou-se no chão e focou o seu olhar no
horizonte à sua frente. Sempre sonhara em dançar para lá da caverna da sua
família. Mas as responsabilidades para com a sua mãe e irmãs sempre falaram
mais alto. Seria assim para sempre. Ou, até quando deixassem de precisar dela.
Absorta
nas suas reflexões, Clefairy nem se deu conta do passo apressado de uma
criatura que se aproximava da entrada da caverna.
—
Olá.
Clefairy
levantou o olhar e surpreendeu-se com o Vulpix à sua frente. Não era habitual
encontrar aquela espécie junto de Mt. Moon.
—
Olá? — respondeu, surpresa.
—
Desculpa incomodar-te — a pequena raposa estava inquieta e nervosa. — Preciso
de ajuda.
—
Oh… — murmurou a criatura rosa, curiosa. — O que se passa?
—
Estou a ser perseguido. Preciso de me esconder — explicou, atravessando o olhar
pela entrada da caverna, atrás de Clefairy.
—
Certo… — assentiu. — A minha mãe não gosta muito que levemos estranhos para a
nossa caverna.
—
Eu compreendo. Mas, não tenho para onde ir. Não sei como voltar para casa. — os
grunhidos de Vulpix começavam a revelar a sua fragilidade.
—
Que horror — suspirou a outra. — Muito bem. Vou tentar ajudar-te.
—
Obrigado! — exclamou, dando um pulo. — Como te chamas?
—
Sou a Hope. E tu?
—
O meu nome é Light.
Clefairy
esboçou um pequeno sorriso e, por momentos, voltou o seu olhar para a lua.
Depois, assentiu e concentrou-se na figura de Vulpix.
—
Não sei porquê, mas confio em ti — afirmou.
—
És a minha última esperança — revelou a raposa.
Clefairy
guiou Vulpix até ao interior da caverna. O corredor estreito abriu-se num
espaço largo e circular, iluminado pelo brilho suave de pequenos cristais
incrustados nas paredes. A luz refletia-se pelo teto, criando uma espécie de
céu estrelado. O chão da caverna era coberto por musgo seco, que isolava o frio
das rochas e tornava o local mais confortável. Junto a um pedregulho, várias
Clefairy dormiam enroladas umas nas outras. Mais ao fundo, numa cama circular
feita de largas folhas verdes, outra criatura permanecia de forma imponente.
Light
observava e admirava tudo ao seu redor. Conseguia sentir a tranquilidade e
familiaridade daquele local. Estremeceu, porém, quando o seu olhar se focou no
grande Pokémon rosa que agora se dirigia na sua direção. O rosto de Clefable,
habitualmente sereno, agora transmitia preocupação.
—
Hope? O que se passa? — perguntou, aproximando-se num passo firme.
—
Mãe… este é o Light. Ele precisa de ajuda — explicou Clefairy. — Está a ser
perseguido e…
—
Já falámos sobre isto — interrompeu Clefable. — Não podemos trazer estranhos
para dentro da nossa casa.
—
Eu não quero causar problemas — garantiu Vulpix, recuando ligeiramente. — Só
preciso de um sítio para descansar, por favor.
Clefable
cruzou os braços e observou a pequena raposa. O olhar era duro, mas havia
também um traço de preocupação. A Fairy Type reparou então que Light
parecia exausto e o seu corpo estava coberto de arranhões.
–—
Lamento, mas não sabemos quem és, quem te segue, nem os perigos que trazes
contigo. Não posso arriscar a segurança da minha família — respondeu, num tom
firme.
—
O Light está sozinho! Não podemos deixá-lo lá fora com esta tempestade, mãe! —
insistiu. — Eu continuo de vigia enquanto ele permanecer aqui.
—
Hope… – suspirou Clefable. — Já disse que… — o seu discurso foi interrompido
com um pensamento súbito. — Espera. Se estás aqui, então quem está a vigiar a
entrada da caverna?
Quando Light, Hope e Clefable
regressaram à entrada da caverna, já era tarde demais. Ouviu-se um grande
estrondo e, logo depois, o corpo de Graveler surgiu, lançando-se com Rollout
contra a parede exterior que protegia a família de Clefairy. Atrás de si, os
três Geodude reuniam pequenas rochas para arremessarem como ataque. A neve caía
agora de forma mais intensa, gelando a atmosfera à volta de todos os presentes.
—
Aqui está o ladrão das nossas Berries! — rosnou Graveler, apontando um dos
braços para Vulpix.
Light
deu um passo em frente, enchendo-se de coragem.
—
Eu não roubei nada! As Berries estavam na árvore!
—
Na nossa árvore! — contrapôs o Rock
Type.
— Deixem-nos em paz! — Hope
colocou-se ao lado do seu novo amigo, com um olhar decidido.
—
Sai da frente, princesa! — gritou um Geodude, preparando um Rock Throw.
Clefairy
fechou os olhos, pronta para o impacto, que nunca chegou. Num rápido movimento,
Vulpix saltou para a sua frente e lançou Ember contra o corpo de Geodude,
que recuou. Apesar de ferido, a rocha permanecia de pé e consciente.
Os
dois Pokémon trocaram olhares desafiadores, mas antes que algum deles voltasse
a atacar, a atenção voltou-se para outro elemento presente no local. Clefable
aproximou-se da frente de combate com um passo pesado, firme e decidido. Lançou
um olhar de agradecimento a Light e outro mais autoritário a Hope, antes de
encarar os seus adversários com um tom fulminante.
—
Hope, atrás de mim. Light, mantém-te por perto — disse, de forma autoritária. —
Agora, vocês, intrusos destruidores — anunciou, num tom áspero. — Ninguém se
mete com a minha família.
Clefable
levantou os braços e uma aura brilhante surgiu à volta do seu corpo. Disarming
Voice foi lançado na direção de um Geodude, que foi arremessado para longe
inconsciente.
—
Menos um — murmurou Vulpix.
—
Continuam dois de pé. E o Graveler — apontou Clefairy.
—
Eu tomo conta dele. Vocês os dois fiquem com os restantes — comandou Clefable,
assumindo a liderança da batalha.
Os mais novos assentiram e partiram
na direção dos seus adversários. Light disparou Incinerate contra um dos
Geodude, que se escapou e contra-atacou com Rock Throw, ferindo o Fire
Type em cheio. Do outro lado, o Moonblast de Hope parecia não causar
dano significativo no Rock Type.
No centro da arena de combate, Graveler
e Clefable avançavam na direção um do outro de forma persistente. O Magical Leaf
de Clefable foi anulado com o Rock Slide lançado pelo adversário. A Fairy
Type tentou escapar das rochas lançadas na sua direção, mas acabou por ser
ferida num dos braços. O seu olhar fulminou a figura do adversário, que
esboçava um sorriso trocista.
— Tens a certeza de que queres
continuar com isto? — a voz de Graveler era rouca, mas forte.
— Nunca desistirei de proteger a
minha família!
— Mas aquele Vulpix… não te
pertence. Por que insistes em protegê-lo?
— Porque ele precisa de ajuda. Isso
é motivo suficiente para mim e para a minha família — afirmou, num tom firme.
Do outro lado, Vulpix corria
agilmente entre os dois Geodude, desferindo Quick Attack entre um e
outro, enquanto Clefairy os envolvia num Fairy Wind. Isolados, os dois Rock
Type começavam, finalmente, a demonstrar alguma fraqueza. Mas o rugido de
Graveler fez com que ambos despertassem do transe e contra-atacassem com Bulldoze.
O abanão do solo fez os dois amigos caírem redondos, enquanto eram atingidos
por destroços de rochas que se levantavam da terra.
Light tremia no chão, sentindo-se
cada vez mais cansado e culpado. Não conseguia garantir que o seu corpo
aguentasse durante muito mais tempo e sentia-se realmente culpado por envolver
Hope e a sua família no conflito criado por si. Voltou o seu olhar brilhante
para a amiga, que se tentava levantar do chão, mas sem sucesso. O seu rosto
estava ferido, mas a força nos seus olhos parecia não desvanecer.
— Desculpa, Hope — soltou, entre
soluços. — A última coisa que eu queria era provocar-vos dor.
— Light, tu não és o culpado. Fui eu
que te quis ajudar, lembras-te?
— Obrigado... — murmurou, com a
lágrima a correr-lhe o rosto.
— É isto que os amigos fazem —
Clefairy esboçou um pequeno sorriso.
— Calem-se! — gritaram os dois
Geodude, lançando-se sobre ambos com Smack Down.
Vulpix e Clefairy foram arremessados
para longe. Os seus corpos estavam agora inconscientes, lado a lado. Clefable
deixou escapar um uivo de fúria quando se deu conta da vitória dos Geodude, que
agora se juntavam a Graveler.
— Eu avisei! — vociferou o Rock Type.
— Agora vais sofrer as consequências.
Foi
quando o ar aqueceu. Uma chama dourada surgiu do topo da caverna e atravessou o
recinto de batalha num arco perfeito. Era uma criatura grande e majestosa. Uma
raposa de pelo clara, nove caudas e um olhar que queimava todos aqueles que
atravessava. Ninetales aterrou de forma majestosa no solo. A sua pelagem
brilhava sob os flocos de neve que continuavam a cair.
Os
dois Geodude recuaram, escondendo-se atrás da figura de Graveler, que tinha
alguma dificuldade em disfarçar a surpresa que sentia naquele momento.
—
Vão pagar pelo que fizeram ao meu filho.
A
ameaça de Ninetales saiu numa voz calma. Sem perder mais tempo, a grande raposa
avançou com um Flamethrower que incendiou o ar, derretendo o gelo à sua
volta e atacando o grupo rochoso com fogo e água. Os dois Geodude caíram
redondos no chão. Graveler tentou resistir, mas o ataque era demasiado
poderoso. Caiu de joelhos na neve derretida, sentindo a água infiltrar-se pelo
seu corpo. O ataque da raposa prolongou-se durante vários segundos, garantindo
que não havia espaço para contra-ataques. O calor era tão intenso que até
Clefable teve de proteger o seu rosto.
Quando
o fogo cessou, Graveler estava ofegante, queimado e sem qualquer energia para retaliar.
O Rock Type levantou o olhar, encarando as duas figuras maternais à sua
frente.
—
Estava só a lutar pela sobrevivência da minha família — murmurou. — As Berries
que o Vulpix apanhou deveriam ser nossas.
—
O meu filho estava a recolher alimentos para os seus irmãos — explicou
Ninetales.
—
Nós não tínhamos mais comida. Aquelas Berries eram a nossa última esperança! —
cortou Geodude, olhando em volta. — E agora… causamos toda esta destruição.
—
Todos temos filhos e filhas que dependem de nós — Clefable deu um passo em
frente. — Todos lutamos por eles. É o instituto de sobrevivência, afinal.
Ninetales
assentiu. O seu olhar concentrava-se nas figuras inconsciente de Vulpix,
Clefairy e Geodude.Todos tinham sido apanhados num conflito maior do que os
próprios. Os seus olhos ganharam um tom mais suave e o peito mexeu-se num
suspiro longo e triste. A adrenalina da batalha perdera força, sendo
substituída pela profunda sensação de querer solucionar aquele conflito.
—
E se lutarmos em conjunto? — questionou.
•
• •
Uma
fogueira improvisada ardia no centro da caverna, iluminando o interior do local
com um tom quente e acolhedor. O aroma doce das Berries começava a preencher o
ar, misturando-se com o cheiro a musgo húmido e pedra fria.
Num
canto mais reservado da caverna, os corpos de Vulpix e Clefairy começavam a
ganhar consciência. Light abriu lentamente os olhos, sentindo primeiro o calor,
depois a dor suave que permanecia no seu corpo. Ao virar a cabeça, encontrou
Hope deitada ao seu lado, também a despertar.
—
Estás bem? — murmurou Clefairy, olhando em redor.
—
Acho que sim… — respondeu Vulpix, numa voz baixa. — Onde estão todos?
Hope
apontou para a zona central da caverna. Light sentou-se no solo e voltou-se
para encontrar um cenário surpreendente. Clefable estava sentada perto da
fogueira, distribuindo Berries em folhas largas às pequenas Clefairy. Ao seu
lado, Ninetales vigiava atentamente o fogo, com um olhar concentrado. Do outro
lado da fogueira, Graveler e os três Geodude repousavam, ainda com algumas
marcas da batalha, mas sem qualquer intenção hostil.
—
Light! — exclamou Ninetales, apercebendo-se de que o mais novo despertara
finalmente. Correu na sua direção e tocou-lhe suavemente com o focinho. —
Estava preocupada contigo.
—
Mãe… desculpa — murmurou ele, envergonhado. — Só queria ajudar…
—
Conseguiste ajudar, querido — corrigiu Ninetales, com uma voz doce. — E fizeste
novos amigos pelo caminho.
Clefable
também se aproximou, abraçando Clefairy com um sorriso cansado, mas sincero.
—
Já passou — afirmou. — Agora venham comer, antes que arrefeça.
O grupo aproximou-se do centro da
caverna e sentou-se à volta da fogueira. Light e Hope sentaram-se lado a lado,
enquanto Clefable lhes colocava à frente um conjunto variado de Berries,
cuidadosamente cedidas e preparadas por Ninetales.
—
Estas Berries são para todos — afirmou a raposa.
—
E esta caverna pode abrigar várias famílias — sorriu a Fairy Type.
—
Partilhar é melhor do que destruir — concordou Graveler, aproximando-se do
grupo.
Vulpix, Clefairy e Geodude
entreolharam-se, surpresos com a transformação dos mais velhos.
— Aprendemos muito com vocês —
confirmou Clefable.
—
Nós exagerámos — admitiu o Rock Type, com dificuldade. — Estávamos
desesperados e lutámos pelos motivos errados.
—
Não há vergonha em lutar pela nossa família — respondeu Ninetales. – Mas é
necessário reconhecer quando é altura de parar.
Os
Geodude assentiram timidamente, aproximando-se da fogueira. Cada um recebeu o
seu pequeno conjunto de Berries.
—
Podemos ajudar a reparar o que destruímos lá fora — falou um deles, hesitante.
— Posso juntar-me a vocês! —
exclamou Vulpix.
—
Isso seria bom — concordou Clefairy. — Trabalhar juntos é mais divertido do que
lutar.
Light
esboçou um sorriso de gratidão. O calor da fogueira parecia intensificar-se
dentro dele, como se algo se tivesse finalmente alinhado no seu pequeno mundo. Ninetales
pousou a sua cauda sobre o dorso do filho, num gesto de ternura.
—
Devíamos aproveita para descansar, querido. Amanhã, quando a tempestade passar,
vamos encontrar o caminho de volta para casa.
—
E… eu posso visitá-lo? — perguntou Clefairy, inclinando a cabeça com um brilho
de esperança nos olhos.
Ninetales esboçou um sorriso, mas
voltou o olhar para Clefable que se juntou à cena de braços abertos.
—
Claro que sim, minha pequena — respondeu.
—
Obrigado! — grunhiu Vulpix. — Parece que a nossa família acabou de ficar maior.
Hope
riu-se baixinho, encostando-se ao ombro de Light. A fogueira continuou a arder,
iluminando o grupo de criaturas improváveis, unidos não pela força, mas pela
compreensão. Enquanto a tempestade continuava lá fora, no interior da caverna
reinava algo muito mais poderoso. Pela primeira vez naquela noite, todos
sentiram a mesma coisa: segurança, esperança e paz.
























